Transcrição Episódio 4 Podcast Todos na Web

A transcrição foi levemente editada para melhorar a fluidez e a leitura, mantendo o sentido e a intenção das falas originais.

[Amanda]
Olá, pessoal! Hoje a gente está começando mais um episódio do Todos na Web. Eu sou Amanda Marques, analista de projetos no Ceweb.
Sou uma mulher parda, com cabelos longos, volumosos e cacheados, castanhos-escuros. Estou usando óculos de grau transparente e uma camiseta preta com o logo do Ceweb.
Hoje estou aqui com a Suzeli Damaceno e com o Alexandre Ohkawa. Vou pedir para vocês se descreverem e também se apresentarem um pouquinho para o nosso público.
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[Alexandre]
Oi, pessoal, tudo bem com vocês? Eu sou o Alexandre. Meu sinal é feito com os dedos apontados tanto para o queixo quanto para a bochecha.
Eu sou amarelo, tenho cabelos e barba grisalhos, uso óculos de armação preta em formato quadrado. Meus olhos são castanhos escuros. Estou usando uma camisa preta com o logo do Web para Todos.
Eu sou arquiteto, também sou consultor de acessibilidade e inclusão, sou embaixador do projeto Web para Todos, do Libras ABC e sou gestor de projetos dentro da 7.1 Acessibilidade Criativa. É isso.
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[Suzeli]
Eu sou a Suzeli Damaceno, hoje estou representando o Web para Todos, o movimento que eu coordeno também.
Sou mulher branca, tenho cabelos loiros, chanel acima dos ombros, um pouco ondulados, olhos castanhos bem escuros. Eu uso óculos corretivos de armação esverdeada e também estou usando a camiseta do Web para Todos.
E o meu sinal em Libras é esse aqui: eu aponto o meu indicador direito para uma pinta que eu tenho na bochecha direita e dou uma giradinha.
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[Amanda]
Legal! Gente, estou muito feliz de receber vocês aqui hoje. É muito, muito importante para a gente tê-los aqui.
Acho importante contextualizar para o pessoal que está em casa que nós estamos aqui com dois intérpretes de Libras e, em alguns momentos, o Alê vai sinalizar e, em outros, ele irá falar, pois ele é uma pessoa oralizada. Quando ele sinalizar, um dos intérpretes de Libras fará a dublagem da voz dele, tá bom?
E hoje a gente vai falar sobre áudio e vídeo. A web está cheia de conteúdos e eles precisam ser acessíveis para todo mundo, já que algumas pessoas podem não enxergar o conteúdo na tela ou escutar o que está sendo transmitido. Então, é sobre isso que eu quero conversar com vocês hoje, tá bom?
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[Alexandre]
Combinado, vamos lá! Perfeito, vamos começar!
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[Amanda]
Imagina que você não escuta e está em uma aula online, está no transporte público consumindo algum conteúdo, olhando para os slides ou então vendo aquele vídeo e não tem legenda ou então não tem transcrição. Como é que vocês acompanhariam esse conteúdo?
É um desafio que muitas pessoas enfrentam no dia a dia, e quando as pessoas acessam esses vídeos e áudios sem recursos de acessibilidade, elas se deparam com uma série de barreiras para acessar plenamente esse conteúdo.
Eu queria que, tanto o Alê quanto a Su, compartilhassem um pouquinho sobre como é essa vivência, principalmente o Alê. Como a gente pode lidar com essas situações para que esses conteúdos sejam acessíveis a todos.
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[Alexandre]
Bem, sobre esse tema, a questão do áudio e do vídeo, quando não são acessíveis, é um pouco confuso, porque, durante toda a minha vida, eu acompanho diversos sites, mensagens de redes sociais. Então, a gente fica trocando nas redes sociais e sempre vê conteúdos dentro dessas mídias.
Ao assistir esses conteúdos, por diversas vezes, a gente vê publicidades em jornais ou então instituições culturais que estão produzindo conteúdos. Na tela, você encontra a pessoa falando, tem uma janela de Libras muito reduzida e, às vezes, você vai observar aquela legenda e ela não está disponível para as pessoas que precisam.
E aí você pode até pedir para o próprio software fazer uma legenda automática. Então você baixa no computador aquele mesmo conteúdo e ele produz a legenda. Só que, infelizmente, isso traz muitas barreiras, porque a inteligência artificial, por exemplo, apresenta diversas falhas de digitação.
Quando você tem o recurso da estenotipia, que está sendo produzido exatamente para aquele conteúdo, é muito mais interessante. Então, nesse período pós-pandêmico, a gente teve muitos problemas, porque na pandemia a gente tinha as legendas produzidas de maneira automática e elas eram feitas com falhas muito grandes. A gente não tinha intérpretes, então era uma situação contrária daquelas instituições de notícias que antes tinham a janela de Libras, por exemplo, mas não tinham a legenda escrita.
Quando a gente vai observar esses diversos conteúdos, existem algumas plataformas de jornais que oferecem a legenda, mas essa legenda é produzida de uma maneira que não tem acessibilidade para a pessoa que dela necessita — ou porque ela está muito rápida, ou porque não acompanha, tem falhas, ou então tem um excesso de informações. E aí eu preciso voltar a esse conteúdo para entender. Então, isso é uma grande barreira que a gente tem.
Já no WhatsApp, por exemplo, ele tem um lado positivo: agora o próprio WhatsApp, quando alguém manda um áudio e esquece que, por exemplo, eu sou uma pessoa surda, e aí manda um áudio para mim, mesmo sabendo que eu sou oralizado e achando que eu escuto, naquele momento eu preciso manter muita calma, ter paciência e esperar aquele áudio ser reproduzido e utilizar a função de transcrição do áudio que está disponível ali no WhatsApp. Claro, não é perfeita, tem algumas falhas, mas, de alguma forma, me traz a possibilidade de ter acesso a esses conteúdos.
Mas outro grande problema que eu observo também é que, quando a gente vai trabalhar esses elementos de contraste da legenda, acaba não tendo conforto visual para a pessoa que está lendo aquela legenda, e fica maçante, cansativo, porque esses elementos imagéticos não são pensados.
Agora, quando a gente fala sobre o áudio, a principal coisa que me preocupa é exatamente uma pessoa cega, por exemplo. Ela vai ter acesso à informação em áudio, mas o que está em vídeo ela não tem. Às vezes, a gente tem diversas pessoas surdas que usam diferentes recursos. Por exemplo, tem surdo que usa um aparelho, que pode ser um aparelho analógico, que não tem tanta tecnologia, ou então ele, de alguma forma, está ensurdecido — para ele vai funcionar de uma forma. Já o implantado vai funcionar de outra forma, ele vai ter acesso a outros tipos de faixas de áudio.
Mas essa questão da legenda poderia ser melhor utilizada até para dar esse apoio visual para aquela pessoa que tem acesso, de alguma forma, ao áudio, mas não consegue acompanhar. E aí ela pode recorrer a esse outro recurso para ter acesso completo à legenda e à língua de sinais.
Dessa forma, eu vou ter acesso completo para entender aquela informação e não perder. Para mim, isso é um ponto muito relevante: essa triangulação de recursos de acessibilidade, pelo menos, vai me dar mais conforto.
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[Suzeli]
Fantástico o que o Alê falou, ele já deu uma aula, já trouxe uma visão muito geral sobre a importância de a gente pensar em acessibilidade em áudio e vídeo — não só contar com áudio, sem uma legenda, sem uma audiodescrição, sem Libras.
Mas, antes de eu continuar, até para falar sobre o que a norma traz, eu queria que o Alê comentasse como é usar implante coclear. Você é bi-implantado, então você ouve tudo, não ouve?
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[Alexandre]
Sim, eu ouço bem pouquinho, mas, olha, pessoal: não é porque eu falo bem o português. Eu fiz 30 anos de fonoaudiologia para falar bem o português, para vocês me ouvirem. Nesse ponto, é um esforço individual, com o apoio da minha família, que me ajudou muito a melhorar na comunicação.
Então, uma coisa muito importante é você associar, pensar e falar português. Isso não significa que eu sou uma pessoa ouvinte, que eu ouço 100%, não. Eu dependo muito da leitura labial, dos intérpretes de Libras e também da legenda. Eu preciso dessas três ferramentas ao mesmo tempo, ouvindo tudo junto, para conseguir entender a informação de forma clara — se o que eu entendi, eu realmente compreendi, ou se estou apenas captando a essência da informação.
Eu, por exemplo, sou usuário de implante coclear. Sempre usei aparelho auditivo, mas, com a piora progressiva, chegou um momento em que ele já não surtia mais efeito. Aí pensei: “bom, vou fazer um implante coclear”. Fiz sem expectativa nenhuma. Para mim, eu continuaria sendo surdo, já usava Libras, já fazia leitura labial, então não tinha muito o que esperar.
Mas, quando fiz o implante coclear, foi outro universo. Eu consegui compreender melhor o universo das pessoas ouvintes — por exemplo, entender por que as pessoas gostam tanto de música. Foi quando percebi essa diferença.
No ambiente digital, como em sites e redes sociais, eu ainda enfrento grandes dificuldades. Mesmo com o implante, o som que eu capto em vídeos do Instagram, WhatsApp ou em sites não é igual à voz humana. Para mim, parece um som meio robótico, então ainda não consigo assimilar bem.
Por isso, isso não significa que sou uma pessoa ouvinte. Pensem, por exemplo, em uma pessoa idosa que vai perdendo a audição progressivamente. Eu estou nessa fase. Não estou em 100% — talvez em 70% ou 75%, captando palavras-chave, principalmente em áudios. Isso também acontece no telefone, no noticiário, nos sites. Ainda assim, é incômodo.
Então, o que eu faço? Eu preciso da legenda para confirmar a informação que eu ouvi. E, quando não tem legenda, eu recorro ao intérprete de Libras para tentar entender, captando palavras-chave. Isso tudo é muito cansativo.
A gente precisa entender que, para quem ouve, é muito confortável consumir conteúdo — você escuta e já processa tudo rapidamente. Para mim, não. Eu preciso correr atrás, é um esforço constante. Por isso, eu preciso da legenda. Pelo amor de Deus, gente, vamos colocar legenda.
A gente sabe que a inteligência artificial ainda tem falhas na comunicação. E cada pessoa surda tem uma característica diferente: tem quem usa aparelho auditivo, quem perdeu a audição ao longo do tempo, quem nasceu surdo, quem tem implante. Cada um percebe de um jeito.
Então, o melhor caminho é oferecer tudo: legenda, intérprete de Libras e áudio. Porque eu, Alexandre, consigo captar a essência da informação, e a legenda — que é em português — me ajuda a assimilar melhor.
Esse é o meu processo. Não é sobre identidade ou estética, é sobre acesso à informação. Libras não é algo “bonito”, é uma necessidade. Cada pessoa tem suas características e elas precisam ser respeitadas, seguindo as normas da ABNT. É isso.
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[Suzeli]
E é o direito dele, o direito à acessibilidade, que é o que a gente sempre fala. É interessante quando ele traz essa ideia de não ser apenas uma coisa: não é só legenda, ou só Libras, ou só outro recurso. A norma, por exemplo, deixa isso muito claro como requisito — vários fatores combinados. Legenda é o básico, básico, básico.
A transcrição de áudio também é importante. Por quê? Até o Alê comenta isso várias vezes, assim como outras pessoas surdas e até pessoas ouvintes — por exemplo, pessoas neurodivergentes ou que preferem assimilar o conteúdo de outra forma. A transcrição permite retomar o que foi falado, voltar em um ponto específico, não apenas acompanhar em tempo real.
A audiodescrição também é um requisito. Como o Alê comentou, pessoas cegas, em conteúdos de vídeo, não conseguem acompanhar o que está sendo mostrado visualmente. A audiodescrição ajuda nesse entendimento. E não só pessoas cegas: pessoas neurodiversas também podem se beneficiar, porque conseguem fazer conexões melhores com o conteúdo. Pessoas surdocegas também entram nesse contexto. Tudo isso está previsto de forma clara na norma.
E existem ainda outros pontos que a gente pode explorar ao longo da conversa.
Uma coisa interessante que ele trouxe foi sobre Libras. Para ele — e para muitas pessoas surdas — é a língua materna, a primeira língua. Na norma, a Libras aparece como recomendação, não como requisito.
E aí vem a diferença: requisito é obrigatório, não pode deixar de fazer. Recomendação é desejável, altamente indicado. Mas a gente sempre reforça isso: o depoimento dele deixa muito claro o quanto Libras é importante — extremamente importante.
Então, se você quer incluir mais pessoas, se você quer fazer com que a sua informação alcance mais gente, ganhe uma dimensão maior e realmente impacte o maior número possível de pessoas, inclua tudo isso. Inclua também a Libras, porque ela é fundamental para pessoas com essas características.
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[Alexandre]
Complementando isso que você trouxe, Su, é muito interessante porque o grande desafio agora, que a gente está lidando enquanto comunidade, é a surdocegueira, porque o surdocego é diferente daquele que é surdo.
E qual é o desafio com a comunicação para essas pessoas?
Isso é um assunto que a gente vai precisar construir junto com pessoas com surdocegueira, para entender quais são as demandas de acessibilidade que elas têm e trazer isso também para as normativas, né?
Claro que a Libras atinge somente pessoas surdas? Não.
Existem pesquisas que mostram que a língua de sinais também auxilia muito pessoas com autismo, dentro do espectro, que não têm comunicação verbal, mas que podem se apoiar nessa comunicação sinalizada, a partir da língua de sinais. Isso acontece porque é uma língua com estrutura muito visual, e, a partir disso, essas pessoas conseguem acessar a comunicação.
Então, perceba que pessoas dentro do espectro autista estão aprendendo a língua de sinais também como um recurso de comunicação.
Agora, pensando em pessoas idosas, por exemplo, que não têm acesso à audição, elas podem acompanhar o vídeo por meio da legenda. Ou então pessoas que têm algum tipo de comprometimento neural — nesses casos, a língua de sinais também tem sido utilizada, mesmo que não sejam pessoas surdas.
Ou seja, a gente pode entender esse recurso não como algo que atende apenas pessoas surdas, mas como algo que também atende pessoas com diferentes necessidades de comunicação.
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[Amanda]
Eu gosto muito quando a gente reflete sobre como todo mundo se beneficia dos recursos de acessibilidade, não apenas as pessoas com deficiência. Acho que a gente consegue alcançar ainda mais pessoas quando elas entendem que, em algum momento da vida — se é que já não utilizam —, fazem uso desses recursos.
O que vocês dois trouxeram, sobre ofertar Libras e legenda sempre, me lembrou de uma situação. Nós, do Ceweb, realizamos um evento em junho chamado “Todos na Web”, que faz parte dessa iniciativa que a gente está promovendo. Nesse evento, falamos de forma introdutória sobre a norma ABNT de acessibilidade digital.
E, no evento, a gente ofereceu Libras, audiodescrição, transcrição — estava bem completo. No feedback, recebemos o depoimento de uma participante dizendo que foi muito importante ter legendas ao vivo, porque isso ajudou ela a se localizar no conteúdo e revisitar partes da fala. Às vezes, o palestrante fala mais rápido — eu mesma me empolgo e falo super rápido — e ela conseguiu acompanhar de forma plena justamente por causa das legendas.
Isso é algo que me chama atenção e me faz refletir também no meu dia a dia. Eu, particularmente, prefiro consumir conteúdos com legenda. Por exemplo, quando estou no transporte público sem fone, ou em um ambiente compartilhado, não quero incomodar as pessoas ao meu redor. Então, para assistir a um vídeo, eu preciso que ele tenha legenda.
E, se não tem, eu simplesmente perco acesso àquele conteúdo — deixo de consumir.
E aí eu fico pensando também nesse contexto atual, super digital, com redes sociais a mil, muitos vídeos, principalmente vídeos curtos. Nem todo mundo coloca legendas, ou, quando coloca, são aquelas legendas que ficam pulando (palavra por palavra), com contraste ruim, difíceis de ler. Enfim, é bem complicado.
Então, eu queria que vocês compartilhassem um pouco como a gente pode fazer com que os nossos conteúdos — pensando especialmente em redes sociais — também sejam acessíveis.
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[Suzeli]
Tem muitas ferramentas, gratuitas e pagas, à disposição — do jeito que você quiser — para facilitar a inclusão desses recursos nos vídeos das redes sociais. É tranquilo, é muito rápido, é muito fácil. Da mesma forma que você faz o vídeo, você pode usar um aplicativo que rapidamente já insere legenda naquele conteúdo.
Mas a escolha da legenda é muito importante. Como você comentou, é muito comum ver aquelas legendas palavra por palavra, coloridas, que piscam, ou aparecem uma por vez. O Alê comentou no começo que vai “pescando” algumas palavras para entender o contexto. E assistir a um vídeo com legenda palavra por palavra pode impactar bastante essa compreensão — até queria que ele comentasse como é isso para ele.
No meu caso, por exemplo, que ouço, estou acompanhando o áudio e, quando a legenda fica piscando, ela automaticamente também chama minha atenção. Eu acabo ouvindo e lendo ao mesmo tempo, e isso me atrapalha — começo a me confundir com o que está sendo falado.
Então, quando for usar esses aplicativos, é importante optar por recursos de legenda mais adequados: usar frases mais completas, ou pelo menos agrupar o máximo de palavras possível por frase, para que a leitura fique mais fluida.
Outro problema comum é querer colocar muita informação em um vídeo curto, por exemplo, em um minuto. Aí acelera o áudio… e, consequentemente, a legenda também precisa acompanhar essa velocidade.
E aí fica a reflexão: temos legenda, mas será que ela está acessível? Será que está fácil para todo mundo compreender?
O que você acha, Alê?
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[Alexandre]
Eu acho muito interessante isso que você traz, porque as redes sociais pipocam de conteúdo o tempo todo e têm essas legendas que me incomodam profundamente. Eu fico imaginando: as pessoas que criam conteúdo nunca pararam para perguntar “essa legenda te incomoda? Ela é funcional?”.
Eu sinto como se nunca tivessem me perguntado. Não é que eu precise que seja de um jeito específico ou que eu ache que tem que ser assim. Mas acho que precisa haver uma compreensão do que é confortável para o público acompanhar, né?
É preciso ter essa consciência de que o meu público tem pessoas com deficiência, tem pessoas idosas, tem pessoas com outras necessidades de comunicação. Por exemplo, a minha mãe, que já é uma senhora idosa, odeia essa legenda que fica pipocando na tela, porque o tempo dela de leitura é diferente, ela não está acostumada com as redes sociais, e isso gera até um certo nervosismo.
Eu tive uma formação em que leio muito em português, então cresci em um contexto em que a tecnologia já estava mais desenvolvida. Mesmo assim, chega um momento em que ela nem quer mais acompanhar o conteúdo por causa da falta desses recursos.
Agora, se a gente for pensar, como a Su comentou, nessa questão da comunicação clara — de ser uma comunicação assertiva e acessível —, o que a gente precisa considerar é a simplicidade das palavras, para que o máximo possível de pessoas consiga compreender.
Não adianta usar termos muito formais se isso dificulta o entendimento. A ideia é conseguir transmitir a informação de forma acessível para pessoas com deficiência, mas também para quem não tem deficiência e ainda assim precisa desse recurso, porque pode ter outra forma de aquisição de linguagem.
Se é um conteúdo acadêmico, ele precisa ser adequado. Se é um conteúdo político, também. Independentemente do tema, a gente precisa entender que as pessoas absorvem a linguagem e o conteúdo de formas diferentes.
Quando isso é pensado desde o início, o acesso à informação se torna muito mais fácil.
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[Amanda]
Acho muito, muito importante, Alê, essa sua fala, principalmente porque as pessoas estão acostumadas a dialogar só para a bolha delas, né? Usam termos técnicos, jargões.
E, quando a gente fala de levar o conteúdo para todo mundo, a linguagem simples é muito importante. Todo mundo precisa ser entendido e também entender.
Então, acho isso muito, muito legal. E entra no gancho que eu queria puxar: quando a gente fala de acessibilidade em áudio e vídeo, existem diversas frentes — não é algo apenas técnico.
Esse é um ótimo exemplo, porque estamos falando de linguagem simples, que não está só no código ou nos bastidores.
Então, eu queria ouvir de vocês: quais são as frentes de atuação em que a gente precisa estar envolvido para garantir que tudo funcione de forma acessível?
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[Suzeli]
O legal da acessibilidade — e acho que o mais importante — é ter esse pensamento de acessibilidade. Isso faz com que a gente vá muito além do código, muito além do que está escrito na norma específica.
A gente passa a criar uma cultura de acessibilidade, e isso é muito potente, porque começamos a pensar em pessoas com diferentes perfis e em como fazer tudo funcionar bem para a maior parte delas — independentemente de terem uma deficiência permanente, temporária, situacional ou outras condições.
A gente vive em uma sociedade cada vez mais ansiosa, e a acessibilidade também pode impactar isso: pode piorar a ansiedade ou ajudar a diminuí-la. Então, quando pensamos em acessibilidade, o ideal é sempre construir esse olhar, essa cultura.
E aí entram as diferentes frentes dentro das organizações — ou mesmo de pessoas autônomas que produzem conteúdo.
Tem a frente de conteúdo, por exemplo. Quem produz áudio e vídeo precisa, desde o início, considerar os recursos de acessibilidade. Não faz sentido criar um vídeo, um podcast ou qualquer conteúdo sem pensar em legenda, transcrição e no controle do áudio ou do vídeo. Já no roteiro e no planejamento do que será dito, esses elementos precisam estar previstos.
Tem também a frente de design. Às vezes se pensa que design não precisa se preocupar com áudio e vídeo, mas precisa sim. Se o áudio ou vídeo estiver em uma página, o design deve facilitar a compreensão desse conteúdo.
No caso dos vídeos, o papel do design é ainda mais evidente: garantir espaço adequado para a janela de Libras — não deixar pequena ou “espremida” em qualquer canto —, evitar que ela cubra informações importantes, definir bem o espaço das legendas e considerar também onde ficarão os controles do player.
Aí entra a frente de programação, responsável por fazer tudo isso funcionar corretamente: permitir pausar, controlar o volume, garantir que os botões estejam acessíveis e que a pessoa tenha autonomia para interagir com o conteúdo.
E, por fim, tem a frente de gestão, que olha para tudo isso de forma mais ampla: verifica se os requisitos estão sendo cumpridos, se há algo que pode melhorar a experiência e se é necessário investir em mais treinamento, mais informação ou novos recursos para as equipes de conteúdo, design e desenvolvimento.
No fim, é esse trabalho conjunto que sustenta uma cultura de acessibilidade de verdade.
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[Alexandre]
Eu quero acrescentar uma informação muito relevante.
Eu, como consultor, faço parte da gestão de projetos de uma parceira minha e sempre reforço para clientes e equipes a importância de lembrar de um ponto antes de começar qualquer projeto — seja conteúdo, site, programa ou qualquer outra iniciativa.
O primeiro ponto é o pré-requisito: entender o contexto. Qual é o contexto daquele conteúdo, daquele projeto? É fundamental analisar isso antes de produzir.
E aí vem algo essencial: envolver pessoas diversas desde o início. É muito mais efetivo convidar um time com pessoas com deficiência — pessoas surdas, cegas, autistas, idosas — para participar dessa discussão e ajudar a identificar o que é necessário antes mesmo da produção começar.
Isso inclui estudar cores, legenda, contraste, tamanho, linguagem, tipo de conteúdo. Pensar se a linguagem será simples, clara, acessível. Eu, Alexandre, penso nisso porque tenho uma cultura inclusiva — eu não quero deixar ninguém de fora.
“Web para Todos” significa exatamente isso: acessibilidade para todo mundo. Não é algo para questionar ou justificar depois. Se existe questionamento, provavelmente faltou planejamento no início.
Então, o ideal é planejar desde o começo. Dá mais trabalho no início? Dá. Mas, quando você cria um modelo, um processo estruturado, isso facilita tudo depois — otimiza o trabalho, reduz esforço e evita prejuízos.
Se você deixa para corrigir no meio ou no final, o retrabalho é muito maior.
Por isso, é mais eficaz já começar com um time inclusivo, com pessoas com diferentes vivências. Pessoas surdas, surdocegas, com diferentes formas de comunicação. Pessoas idosas. Cada uma traz uma bagagem que ajuda a construir algo melhor.
Então, a pergunta central é: como eu posso ajudar vocês?
Pergunte. Não fique no achismo. O achismo não resolve.
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[Suzeli]
É o conjunto da coisa. É isso que ele está falando: dessa cultura, desse pensamento inclusivo, desse olhar para a acessibilidade, de querer incluir os recursos e pensar em como fazer isso da melhor forma possível.
Por isso é tão importante ter também a pessoa de design envolvida, porque geralmente ela traz essa sensibilidade, essa perspicácia e tem habilidades específicas que ajudam muito nesse processo.
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[Amanda]
Me ocorreu aqui, quando a gente estava falando de transcrição, que hoje, na web, massivamente, os tutoriais estão disponibilizados em formato de vídeo, principalmente sem essa transcrição do conteúdo.
E, às vezes, o vídeo tem 40 minutos e eu só quero uma parte dele, só quero uma informação. Quando eu não tenho essa transcrição, eu não consigo localizar de forma rápida essa informação. Às vezes, eu preciso assistir ao vídeo inteiro para utilizar, de fato, 2 minutos desse conteúdo de 40 minutos.
Então, eu queria que, principalmente, o Alê contasse para a gente a importância da transcrição — a Su também, claro — e explicasse como a ABNT aborda essa parte de transcrição.
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[Alexandre]
Sobre essa questão da transcrição, ela é muito importante, porque eu, enquanto usuário, posso até ter ali o recurso da legenda. E, se eu tenho a transcrição do texto todo, isso é muito bom para mim, porque eu posso recorrer a esse conteúdo de maneira sintética para me localizar em elementos que já foram ditos ou até auxiliar no contexto da informação que está sendo passada.
Eu tenho informações de que muitas pessoas autistas também têm um incômodo com o áudio e, quando há essa transcrição, conseguem acompanhar de maneira mais fácil. Pessoas da terceira idade também — por exemplo, minha mãe — dizem que é maravilhoso quando existe essa transcrição, porque gera menos cansaço do que acompanhar legendas ao vivo.
Acho que é isso, né? Eu gosto! Quer complementar alguma coisa relacionada à norma?
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[Suzeli]
Isso tudo já é positivo para todos os perfis de pessoas que ele comentou. Se a gente for pensar, também é ótimo para SEO, porque as informações acabam sendo mais fáceis de serem pesquisadas, além de permitir fazer exatamente o que você comentou: olhar o conteúdo e ir direto ao momento específico do vídeo.
A ABNT também aborda isso. A norma 17225 traz como requisito, além da legenda, a transcrição de áudio como obrigatória.
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[Amanda]
Boa! E aí, já que eu puxei o gancho da transcrição em vídeo, vou falar um pouquinho agora de vídeo.
As pessoas costumam achar que, quando já existem imagens dentro do vídeo, essas imagens são autoexplicativas, se explicam sozinhas. E por que isso é ruim — e um mito — quando a gente fala de acessibilidade?
Qual é a importância de a gente ter audiodescrição dessas imagens dentro dos vídeos e também fora deles, considerando a imagem por si só?
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[Suzeli]
Uma imagem fala mais que mil palavras, né?
Pra quem enxerga. Para quem enxerga, né?
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[Alexandre]
Para mim, por exemplo, a imagem é importante. Eu sei disso porque é a visualidade, mas também preciso pensar naquelas pessoas que não têm esse recurso visual.
Por exemplo, uma pessoa cega vai depender da audiodescrição para ter acesso àquela informação. São várias perspectivas, são várias características.
A minha característica, por ser uma pessoa surda, é a visualidade. Agora, a Su, por exemplo, pode comentar que a visualidade não é tão importante — vai depender de para quem ela é importante.
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[Suzeli]
Então depende, são vários perfis. E, dependendo da imagem, se ela não for tão óbvia, ela pode precisar de algum recurso a mais também.
A audiodescrição ajuda não só as pessoas que não estão enxergando, mas também aquelas que enxergam, mas que, por algum motivo, não estão vendo o vídeo naquele momento. É um recurso que eu uso bastante, inclusive. Muitas vezes eu estou só ouvindo o áudio e tenho ali a audiodescrição do que está acontecendo, e isso é muito bom.
Além de ser excelente e fundamental — principalmente para pessoas que não enxergam e não podem ver aquela imagem —, a audiodescrição também é mais um requisito escancarado, claríssimo na ABNT.
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[Amanda]
É isso que eu ia perguntar: o que a norma ABNT fala sobre esses recursos, tanto de Libras quanto de transcrição e audiodescrição, principalmente quando a gente fala de eventos ao vivo?
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[Suzeli]
Em eventos ao vivo, a exigência é ter legendas em tempo real — isso é obrigatório. Já a transcrição é uma recomendação, então, se for possível, é sempre muito interessante, porque, como a gente comentou, é um recurso a mais para ampliar a compreensão.
A audiodescrição também é um requisito, como um recurso adicional ao vídeo. Mas, se o que estiver acontecendo no vídeo já for contemplado pelo áudio — ou seja, se houver uma narração que descreva as imagens —, não é necessário incluir um recurso extra. Caso contrário, aí sim é preciso ter essa faixa adicional de audiodescrição.
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[Alexandre]
Isso que a Su trouxe, dessas perspectivas das normas, é muito importante.
Aquilo que é recomendável — como a transcrição, que é um recurso adicional —, mas, por exemplo, para mim, esses dois recursos me atenderiam muito mais. Eu sei que a norma recomenda alguns aspectos, mas a gente quer que vocês entendam que, mesmo sendo recomendável, é importante olhar para a realidade das pessoas que estão acessando aquele conteúdo.
Se ela tem essa necessidade, como eu, por exemplo, tenho, isso me dá segurança, autonomia e independência para acessar a informação. Eu não quero depender de outra pessoa para obter esse conteúdo.
Por mais que a norma recomende, seria interessante que as pessoas tivessem essa possibilidade de serem autônomas.
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[Amanda]
Acho que tudo o que a gente trocou aqui hoje reforça como é importante que, quando a gente fala de áudio e vídeo — principalmente vídeo —, a gente tenha essa soma de recursos de acessibilidade, para que todos possam consumir da forma que for mais confortável.
Assim, cada pessoa consegue assimilar e ter acesso à informação. São medidas que tornam o conteúdo inclusivo para milhões de pessoas.
E o que faz um vídeo ou áudio ser realmente acessível é justamente a soma de tudo isso que a gente falou aqui.
A gente precisa encerrar agora, infelizmente — uma pena, foi muito, muito bom. Acho que, antes de fazer o encerramento oficial, eu queria pedir tanto para o Alê quanto para a Su fazerem palavras finais aqui no nosso episódio.
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[Suzeli]
Acho que a mensagem que eu deixaria aqui é essa mudança de pensamento: a gente ter essa vontade de querer incluir as pessoas.
A ABNT ajuda demais — essa norma específica, a 17225, ajuda muito. Ela deve ser seguida e, sim, cumprida, mas a gente também precisa ter essa atitude de querer incluir mais pessoas, de ter essa vontade de fazer com que a nossa informação seja compreendida pelo maior número de pessoas possível.
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[Alexandre]
Eu acho — mas vou falar de forma mais coletiva, pensando no coletivo — que o pré-requisito é a norma, como a Suzeli falou. Temos a norma, mas compor um time de pessoas com vivências específicas facilita muito.
Assim, ninguém perde tempo pesquisando informação, porque cada pessoa já traz esse conhecimento da sua vivência, da prática. Pronto: temos a norma e temos um time preparado.
Com esse time, junto com outros perfis — pessoas ouvintes, conteudistas, designers, programadores —, todo mundo na mesa, discutindo e desenhando tudo de uma vez. Pode levar uma semana, duas semanas ou até um mês inteiro estruturando, para então produzir o conteúdo no mês seguinte. Ou seja, é criar um cronograma inclusivo, uma estrutura inclusiva na sua mente, no seu corpo — e isso facilita todo o processo.
Acho que é importante mudar esse pensamento de que “é complicado” ou “é muito caro”. Não é isso — muitas vezes, o processo não foi compreendido. É um processo que exige análise, tempo e planejamento.
Existe uma prática comum de produtores, clientes e instituições que pedem: “preciso disso em três dias”. Pessoal, é impossível entregar um trabalho de qualidade assim. Quando é urgente, “para ontem”, acaba ficando mais caro.
Agora, se houver um mês — ou, idealmente, dois meses — de antecedência, tudo se torna muito mais viável e acessível.
E quando falamos de acessibilidade, não é só acessibilidade física, atitudinal ou comunicacional — é também acessibilidade financeira, que é o que mais preocupa as pessoas.
Por isso, é sobre desenvolver um pensamento acessível, criar uma cultura de acessibilidade. Eu sou uma pessoa que busca trazer soluções para os problemas e “inclusificar”, entre aspas, todo mundo.
Isso facilita todo o processo. Vamos transformar em um mundo melhor para todos, com menos obstáculos, para que todo mundo possa viver com mais harmonia e aproveitar melhor o tempo, inclusive com a família.
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[Amanda]
Eu vou encerrar com o quê, se o Alê falou tudo o que eu tinha para falar?
[Risos]
Pessoal, então é isso, fim de episódio. Muito obrigada a todo mundo que nos acompanhou aqui hoje, seja por áudio ou vídeo.
Fiquem atentos, porque a gente está lançando vários episódios por aí. Até o próximo episódio de Todos na Web! Obrigada!