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02 DEZ 2025

UFF cria graduação em Inteligência Artificial, recurso já amplamente utilizado nas escolas de Niterói


O Globo - 2/12/2025 - [gif]


Autor: Rafael Timileyi Lopes e Filipe Bias


Curso universitário integra formação técnica e reflexão sobre impactos sociais do uso de algoritmos; nas escolas, educadores alertam para a necessidade de letramento digital

A partir de 2026, a UFF oferecerá um Bacharelado em Inteligência Artificial e Ciência de Dados, focando em soluções complexas e impactos sociais de algoritmos. O curso visa formar profissionais capacitados para o mercado e fortalecer a produção científica. Em Niterói, escolas já utilizam IA, mas educadores alertam para a necessidade de um uso crítico e consciente para evitar dependência e prejuízo ao aprendizado.

A Universidade Federal Fluminense (UFF) vai ofertar, a partir do primeiro semestre de 2026, o Bacharelado em Inteligência Artificial e Ciência de Dados em Niterói. Vinculado ao Instituto de Computação, o novo curso terá foco na formação de profissionais capazes de desenvolver soluções para problemas complexos por meio de métodos avançados de análise de dados e aplicações de inteligência artificial. A iniciativa insere a UFF no grupo de instituições públicas que passam a investir de forma estruturada em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento científico e econômico do país.

A criação da graduação é resultado de processo interno de discussão, que envolveu mais de 500 participantes, entre docentes, pesquisadores, técnicos e estudantes.

O reitor da UFF, Antonio Claudio da Nóbrega, destaca que a elaboração do curso foi pensada como parte de um movimento institucional mais amplo, voltado à modernização acadêmica e ao fortalecimento da política de inovação da universidade.

— Além da definição da estrutura curricular, o grupo também propôs ações complementares, como a elaboração de um manual de boas práticas para o uso de IA generativa por servidores e a produção de um podcast voltado ao letramento digital da comunidade acadêmica. A intenção é criar um ambiente universitário preparado para lidar com as mudanças tecnológicas que já fazem parte do cotidiano — afirma.

Para o professor José Raphael Bokehi, um dos responsáveis pelo projeto, a criação do bacharelado atende às demandas de um mundo cada vez mais orientado por dados e marcado pela rápida evolução de ferramentas baseadas em IA. Segundo ele, as transformações tecnológicas recentes vêm impactando diferentes setores, da saúde ao direito, passando pelos serviços públicos, pelas áreas de engenharia e pela indústria criativa.

— O curso integra, de forma inovadora, as áreas de ciência de dados e inteligência artificial para refletir tendências atuais da computação e responder às exigências emergentes de uma sociedade altamente conectada. A formação foi pensada para que o estudante desenvolva tanto a capacidade técnica quanto a compreensão crítica sobre os impactos sociais dessas tecnologias — explica.

A proposta curricular foi estruturada para atender a dois eixos principais: preparar profissionais para atuar no mercado de trabalho, cada vez mais exigente e competitivo, e fortalecer a produção científica em áreas que dependem de análise intensiva de dados. A UFF aposta que o novo curso também poderá impulsionar projetos de pesquisa aplicada e ampliar parcerias com setores públicos e privados.

Bokehi ressalta ainda que a universidade busca conciliar a qualificação técnica com o compromisso social:

— Atendemos a um mercado que busca especialistas capazes de lidar com grandes volumes de dados e processos automatizados, mas sem abrir mão de formar cidadãos com visão ética, crítica e humanista sobre o impacto dessas tecnologias. Trata-se de uma contribuição direta para o avanço científico e para o desenvolvimento do país.

Com duração de nove períodos e carga horária total de três mil horas, o bacharelado reúne disciplinas obrigatórias, optativas e atividades práticas, além de ações de extensão e de pesquisa. A estrutura inclui 156 horas de atividades complementares e outras 300 horas dedicadas a projetos de extensão, com o objetivo de proporcionar aos estudantes uma formação ampla, dinâmica e conectada a problemas reais.

Segundo dados de uma pesquisa feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), em setembro deste ano, sete em cada dez estudantes do ensino médio no Brasil já recorrem a ferramentas de inteligência artificial generativa em pesquisas, como ChatGPT, Copilot e Gemini. Nas escolas de Niterói, assim como em grande parte do país, a IA se consolidou no cotidiano dos estudantes dos ensinos fundamental e médio, estando presente em tutoriais, pesquisas e plataformas de correção de questões.

Educadores concordam que a IA é uma ferramenta que veio para ficar e pode representar uma aliada eficaz nos estudos, mas alertam que sua implementação exige uma análise crítica e políticas educacionais para não se tornar uma muleta ou um prejuízo ao aprendizado.

A psicóloga e pedagoga Luiza Sassi, diretora do Instituto GayLussac, acredita que a IA deve ser vista como um avanço, mas seu uso tem que ser feito com cautela.

— Acho que todo avanço tecnológico deve ser visto como algo que vai agregar, mas é necessário um letramento digital no colégio. Eu vejo a IA como uma aliada e uma vilã ao mesmo tempo, vai depender do uso que a instituição faz — afirma.

Ainda de acordo com as informações do Cetic.br, cerca de 39% dos alunos do ensino fundamental e 15% dos estudantes de anos iniciais já utilizam tecnologias de inteligência artificial.

A pedagoga afirma que os estudantes do ensino básico e dos primeiros anos do fundamental precisam ter cuidado com o uso da IA. No GayLussac, o uso da ferramenta não é permitido até os 13 anos.

— O desenvolvimento dos aspectos cognitivos se dá a partir do exercício mental. Se eu ofereço a IA desde criança, os alunos não vão desenvolver vários aspectos e condições de aprendizagem — explica a diretora.

No entanto, Luiza concorda com a utilidade prática da ferramenta para os alunos mais velhos, que já estão envoltos em tecnologia. Segundo ela, a IA pode ser utilizada pelos alunos para treinamento e resolução de questões, permitindo que o aluno a configure para sinalizar em quais matérias é preciso melhorar o desempenho.

— Por exemplo, se o aluno tem dificuldade em matemática ou química, o ChatGPT ou outra ferramenta vai focar naqueles tipos de questões. Ou seja, se alguém está indo mal em estequiometria, a IA ajuda essa pessoa a focar naquela matéria. Se isso for bem utilizado, é muito positivo — comenta.

Para os estudantes do 3º ano do ensino médio que se preparam para vestibulares e o Enem, a IA se apresenta como uma poderosa assistente de estudo, mas com riscos de dependência.

Daniel Dutra, diretor do ensino médio da Canadian School of Niterói, destaca que a ferramenta pode ser uma grande aliada ou uma verdadeira cilada, dependendo de como é utilizada pelos vestibulandos.

— Quando bem usada, a IA oferece explicações rápidas, revisões personalizadas e correções de exercícios e redações que otimizam o tempo de estudo e potencializam o aprendizado — afirma.

Ele ressalta que alunos de 17 e 18 anos já têm a tecnologia incorporada em seu contexto social, e a IA pode ajudar, por exemplo, a democratizar o acesso ao ensino por ser gratuita. No entanto, Dutra chama a atenção para o risco de a ferramenta se tornar algo negativo.

— A IA torna-se uma armadilha quando o estudante passa a copiar respostas sem compreender o conteúdo ou deixa de analisar criticamente as informações recebidas, que podem conter erros — pondera.

O diretor fez questão de lembrar que, no momento da prova, o estudante dependerá exclusivamente do conhecimento construído.

— Nos vestibulares, o aluno contará apenas com seu próprio conhecimento e sua preparação ao longo do caminho. Por isso, a IA é uma ferramenta útil somente quando complementa, e nunca substitui, o estudo ativo, a prática de questões e a construção real do aprendizado — conclui.

*Esta matéria traz conteúdo de reportagens publicadas em 30 de novembro, no especial Educação do GLOBO-Niterói