Sete em cada dez alunos usam IA na escola. E agora?
UOL | Mina - 12/11/2025 - [gif]
Autor: Juliana Faddul
Assunto: Inteligência Artificial na educação
Com a popularização de ferramentas como ChatGPT em trabalhos e tarefas, escolas e universidades buscam formas de orientar o uso, evitar dependência da tecnologia e manter o desenvolvimento dos alunos
A inteligência artificial começa a ocupar espaço nas salas de aula, transformando a forma como se aprende e se ensina. Se, por um lado, pode ampliar acesso ao conhecimento, por outro, levanta questões sobre privacidade, desigualdade digital e o papel insubstituível do professor.
Calma. Vamos começar de novo.
Você pode ter percebido, ou não, mas o primeiro parágrafo desta reportagem foi escrito pelo ChatGPT. Eu poderia ter alimentado a ferramenta com entrevistas, pedido uma estrutura e seguido com meu domingo. Mas não seria justo com os entrevistados, com a editora, com quem lê, nem comigo, que correria (ou corro?) o risco de depender de tecnologias que prometem agilidade, mas podem atrofiar o processo de pensar.
“É importante que os alunos entendam como a IA funciona e reflitam sobre os usos éticos”
Fato é: a inteligência artificial é sedutora. Tão sedutora que sete em cada dez adolescentes já usam ferramentas de IA (como ChatGPT, Copilot e Gemini) para realizarem trabalhos escolares, segundo a pesquisa TIC Educação, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), de setembro deste ano. Devemos nos preocupar com isso?
Para a professora Amanda Sousa, do Ceti Paulo Freire, em Guaribas (PI), o ponto não é evitar a tecnologia, mas trazê-la para o debate. “É importante que os alunos entendam como funciona e reflitam sobre os usos éticos”, afirma ela que integra as disciplinas de IA, Biologia e Projeto de Vida. No Piauí, a disciplina de IA se tornou obrigatória no Ensino Médio, com investimento previsto de R$ 1,5 bilhão até 2028, incluindo formação de professores.
“Formar mais talentos competitivos na era da inteligência artificial, essa é a meta”, explica o secretário de educação do Piauí, Washington Bandeira. “Estamos trabalhando para que os nossos alunos possam ter contato com essa nova ferramenta por meio dos cursos técnicos para que eles estejam preparados para as novas exigências do mundo do trabalho”, diz.
Mas o acesso desigual permanece: a escola onde Amanda trabalha tem cerca de vinte computadores para turmas de 42 alunos, e a energia elétrica falha com frequência. Por isso, parte das aulas ocorre de forma “desplugada”, com atividades como a Árvore de Decisão para trabalhar lógica e classificação de padrões. “Essa atividade é baseada em um algoritmo muito utilizado na inteligência artificial com base em padrões. Os alunos trazem figuras de animais da caatinga e vão classificando de acordo com os padrões: se são animais aquáticos ou terrestres, se eles têm penas ou pelos, etc.”, explica. “É a mesma coisa que a IA faz, mas nós fazemos desplugados”.
“A educação tem como integrar a IA da mesma forma que integrou o computador e a lousa digital. A chave é pensar sempre na IA como uma ferramenta, não como um produto final”, diz Allan Pscheidt, professor e pesquisador em Inteligência Artificial na Educação. Para o pesquisador, o ponto positivo é que essa nova tecnologia provoca tanto o professor quanto o estudante a sair da zona de conforto.
“A IA tende a alucinar, isso é da natureza dela. E aí é interessante, tanto o professor como o estudante ver o que foi gerado, comparar com fontes tradicionais, sites, livros, dicionários, enciclopédias, bibliotecas físicas ou mesmo virtuais, para verificar se aquela informação está de acordo”, completa Pscheidt.
Na Escola Estadual Aroldo Donizetti Leite, em São Pedro (SP), a professora Leonilia de Cássia Alves Luiz partiu disso para criar debate nas aulas de reforço. A ferramenta responde questões multidisciplinares, que vão desde conteúdo até saúde mental, e os professores analisam as alternativas com os alunos. “O intuito é trabalhar o pensamento analítico dos alunos e gerar debate, não dar soluções mágicas”, explica.
No investimento do estado do Piauí, mais importante do que máquinas novas, foi a formação de professores para o uso da tecnologia. “Agora vejo a IA como uma ferramenta importante para a formação dos alunos. Não só de trabalho, mas de vida: de ser mais crítico e saber analisar as informações. Depois das aulas, notei a diferença neles”, diz Amanda.
Plágios, colas e soluções mágicas
Quando a IA é usada apenas para produzir o trabalho final, surge o que pesquisadores do MIT chamam de “dívida cognitiva”: ganha-se tempo agora, perde-se aprendizagem no longo prazo. Não se assimila o conhecimento que foi proposto para a máquina.
Leonilia reconhece quando um texto veio da máquina. “Eu sei como cada aluno escreve. Já tivemos casos, claro.” Em vez de punir, ela aproveita a situação para ensinar. “Mostro como montar um texto: o que é dissertativo, argumentativo. Como ele quer montar o texto? O que é interessante ter? É uma ferramenta muito versátil para a educação”, defende.
Para Allan, o risco é imaginar que tudo agora deve passar pela IA. “Ainda teremos cenários em que o giz, a lousa e sentar no chão e conversar em roda com a turma vai ser muito mais eficiente do ponto de vista da aprendizagem do que colocar esses alunos para conversar com computador”, diz. Segundo ele, o critério é simples: usar IA para tarefas repetitivas ou bloqueadores.
IA e universidades
Os desafios do uso de IA na educação não se restringem ao ensino básico. Um levantamento do jornal The Guardian com universidades do Reino Unido registrou 7 mil casos de uso indevido de IA entre 2023 e 2024. A tendência é clara: enquanto o plágio tradicional diminui, cresce o número de trabalhos produzidos integralmente por ferramentas digitais — da pesquisa à escrita.
No Brasil, o caso de Gabriel (nome fictício) ilustra o problema. Ele cursava Direito em uma universidade particular e foi expulso no quarto semestre após entregar um trabalho que não sabia explicar. “Eu tinha a versão paga do ChatGPT e sabia como dar os comandos. Só fazia as provas e trabalhos em grupo, o resto foi tudo com IA”, conta o jovem de 22 anos. Foi elogiado pela qualidade do texto, mas, ao ser convidado a apresentá-lo à turma, não conseguiu sustentar o conteúdo. “Eu aprendi a lição. Na verdade, nunca quis ser advogado, queria fazer educação física. Espero que dê certo agora”, completa.
A questão vai além do “certo” e “errado”. Envolve normas institucionais e responsabilidade sobre autoria. O advogado Leandro Bernardes, especialista em Direito Penal Empresarial, explica que quando uma universidade define regras claras sobre o uso de IA e o aluno as descumpre, o caso é tratado na esfera administrativa — como advertências, suspensão ou jubilamento (quando o aluno é desligado). “O jubilamento não é uma punição criminal, é uma sanção acadêmica”, afirma.
Mas há situações em que o problema ultrapassa o ambiente da instituição. “Para produzir um texto ou artigo, é preciso ter cautela para não apropriar-se de uma obra intelectual alheia nem violar direitos autorais”, explica Leandro. Se o estudante utiliza material gerado pela IA sem atribuição, sem revisão ou assumindo autoria plena, pode haver também consequências civis e, em casos mais graves, penais.
Mesmo assim, universidades começam a discutir como incorporar a IA de modo responsável — e não apenas se devem fazê-lo. Durante o evento Educação em Transformação, o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, defendeu que a tecnologia precisa estar no currículo. “A IA é uma ferramenta que veio para ficar.É impossível mantermos a mesma prática de 10, 20, 30 anos atrás. O mundo do trabalho mudou, as necessidades mudaram. Na área médica, se não tiver no currículo inteligência artificial, não é possível ser médico”, completou o reitor que também é neurocirurgião.
Como diz o Chat GPT: “No fim, o uso de inteligência artificial nas escolas não deve ser visto como uma ameaça, mas como uma oportunidade. Cabe aos professores, gestores e alunos aprender a lidar com essa ferramenta de forma crítica e responsável. Afinal, preparar as novas gerações para o futuro também significa ensiná-las a conviver com as tecnologias que já fazem parte do presente.”

