“Prejuízos seríssimos”, diz psicóloga sobre casos de exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais
R7 - 14/8/2025 - [gif]
Autor: Isadora Mangueira
Assunto: Proteção de crianças e adolescentes na Internet
Denúncia do influenciador reacendeu debate sobre a exploração da imagem de crianças e adolescentes com o objetivo de obter ganhos financeiros
Na última quarta-feira (6), o influenciador digital Felca, nome artístico de Felipe Bressanim Pereira, divulgou em suas redes um vídeo intitulado “adultização”. Ao longo de quase 50 minutos, o youtuber denuncia uma realidade invisibilizada nas redes sociais: a hiperexposição e a exploração da imagem de crianças e adolescentes.
Em qualquer que seja a plataforma — Instagram, YouTube, TikTok —, não é preciso procurar muito para encontrar menores de idade como protagonistas dos mais diversos tipos de conteúdos, seja em suas próprias páginas ou na de pais e/ou mães que compartilham o dia a dia de seus filhos — prática conhecida como sharenting.
Mas se, à primeira vista, essas postagens possam parecer inofensivas — uma maneira de seus responsáveis trocarem experiências sobre paternidade e maternidade, ou uma boa opção de entretenimento para os menores do outro lado da tela — o vídeo de Felca trouxe à tona o lado obscuro da presença infantil nas redes sociais.
A exposição de meninos e meninas a situações vexatórias em troca de monetização, a exploração publicitária da imagem de menores de idade, que não têm capacidade de consentir a veiculação daquele material, e, por fim, a erotização em publicações com teor sexual, que os tornam alvo de pedófilos, fazem parte do conteúdo de diversos influenciadores do nicho.
Materiais como os produzidos por Hytalo Santos, um dos principais alvos da denúncia de Felca, não só têm crianças como protagonistas, como acabam também sendo consumidos e influenciando outros menores de idade. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 93% das crianças e adolescentes brasileiros com idades entre 9 e 17 anos têm acesso à internet — 83% deles têm perfis em plataformas digitais.
Um levantamento da empresa Unico e do Instituto de Pesquisas Locomotiva revelou que ao menos uma a cada três contas atribuídas a crianças e adolescentes de 7 a 17 anos têm perfil “totalmente aberto” no Brasil. Em entrevista ao R7, a professora Nara Helena Lopes, do Instituto de Psicologia da USP, especialista em psicologia da experiência digital, explica as consequências da hiperexposição e da hiperconexão para o processo de desenvolvimento infantil.
Confira, a seguir, a entrevista completa:
R7 - Como um processo de erotização, ou de exposição precoce à sexualidade, pode impactar o desenvolvimento e a construção da identidade de uma criança?
Nara Helena Lopes: A exploração em si é uma questão que prejudica o desenvolvimento infantil, primeiro por conta da erotização do corpo da criança, que não é algo que é próprio da infância. Muitas vezes essa criança vai ser vista e vai se perceber como um objeto do outro, sem entender de fato o que isso está repercutindo em termos de emoção para ela.
Essa objetivação do corpo vai prejudicar tanto o desenvolvimento anatomofisiológico do próprio corpo, o despertar da sexualidade que vai vir na adolescência, na vida adulta. Ela acaba de alguma maneira vivenciando conteúdos que não são próprios da idade dela, até o próprio risco de exposição no futuro, de continuar perpetuando na sua vida adulta esta imagem de um corpo objeto, em relações com desenvolvimentos de exploração.
Sem contar o apelo moral também que essas crianças acabam sendo sujeitadas. Elas acabam sendo expostas a formas de compreensão de vida que acabam agredindo a integridade moral, emocional e psicológica delas.
Um tema que a gente também precisa trazer à tona é a questão de quem consome. A gente tem que ter regulamentação, a gente tem que ter proteção. A gente tem que falar que são práticas criminosas, mas tem um ponto na internet que me preocupa muito, que é, se antes a exploração, a erotização do corpo infantil era um tema num território passível de ser controlado, quando a gente vai para o ambiente online, esse controle se perde.
Talvez a gente esteja esquecendo de dizer que muitas vezes aquele adulto que é socialmente funcional, que tem um relacionamento, tem uma vida adulta, tem uma família, muitas vezes pode também estar entre essas pessoas que estão promovendo essas redes. A gente está esquecendo de olhar como o adulto está profundamente adoecido.
R7 - Você acha que a introdução a temas relacionados à sexualidade por meio das redes sociais pode atrapalhar também a percepção da criança que acaba consumido aquele material?
Nara: Com certeza. Saiu um estudo recente falando que meninas que têm hoje 11, 12 anos já entendem que o corpo delas não atende ao ideal de beleza. Elas precisam, por exemplo, consumir maquiagem. Isso intensifica questões de gênero, questões de respeito, de identidade.
A descoberta da percepção do corpo, de si mesmo, acaba sendo projetada numa tela, sem que de fato exista um amadurecimento, uma maturação desse corpo, da percepção sensorial, do toque, do afeto, e isso vai trazer grandes prejuízos em termos de sociedade, não só individual.
Em termos individuais, a gente tem o que algumas pessoas chamam de antecipação intelectual racional da adolescência. Os pré-adolescentes, por tanto incentivo a entrar nesse mercado de manipulação do corpo, são introduzidos na ideia de adolescente, então não brincam mais porque são “adolescentes”, quando, na verdade, o corpo ainda tem três, quatro anos para começar a apontar as questões de desenvolvimento físico de hormônio, de alterações que a própria natureza vai trazer. E isso é uma perda grande para a infância.
A gente tem uma curva de idade, mas é uma experiência singular de cada um, que vai acontecer num tempo singular de cada um. E essa massificação em rede acaba, de alguma maneira, tirando o senso de identidade. Antes de eu me perceber, eu já tenho um racional voltado para aquilo, me dizendo que eu sou aquilo, me gerando uma identidade sobre algo que fisicamente eu não estou sentindo.
Isso vai repercutir na vida adulta, na perda das sensibilidades físicas, nessa desconexão entre mente e corpo, entre emocional, essas sensações de mundos fragmentados, de não pertencer ou até de falta de sensação de corpo e da sexualidade propriamente dita.
R7 - E o que fazer para remediar essa situação?
Nara: Antes de tudo, com certeza, envolver as entidades dos setores governamentais, civis, da educação, de cultura, para que essas crianças possam ser mais amparadas pelos pais, pela comunidade, pelo entorno que está se perdendo.
Cada um está cada vez mais dentro da sua caixinha e menos vivendo os valores da região, do território, do bairro, da cidade onde mora. Eu sei que essa conversa é muito complicada, porque envolve empresas. E como regulamentar? Por mais que a gente tenha órgãos e entidades muito envolvidas nisso, também tem o ideal de empresa muito forte que vai contra, que não permite que as leis funcionem e acessem o que precisa.
Essa é uma discussão macro, mas também dentro do micro. Essa fala de criança ficar na internet. Celular não é babá, não é distração, não é um lugar seguro para adolescente ficar. A gente precisa quebrar essa lógica de que crianças e adolescentes sabem mais de celular do que o adulto. O adulto precisa saber, sim, desses riscos, saber orientar, conversar com o filho. É preciso trazer esse discurso de uma maneira reflexiva, e não de uma maneira sedutora ou de viralização.
Em geral, [a criança] não vai saber que está sob risco. Quem precisa mostrar o risco são os pais. A gente tem essa lógica de que ‘meus filhos vão aprender a se virar na internet e vão saber o que é bom e ruim’. Não, as crianças não têm esse domínio sobre o que é bom e o que é ruim. Os pais precisam aproveitar esse momento para conversar, para pensar se realmente está valendo a pena oferecer esse celular dessa maneira livre.
R7 - Que panorama você traçaria sobre a exposição de crianças nas redes sociais nos dias atuais?
Nara: A exposição de imagem tem várias frentes, que pode ser desde a exposição naturalizada, que o pai e a mãe fazem, nesse sentido de nasceu, mostra, até a exposição no sentido de um trabalho infantil.
A questão da exposição entra num tema importante porque essa criança está tendo uma visibilidade de pessoas, que num primeiro momento ela está vulnerável, ela não tem a propriedade de si para dizer ‘eu quero que você compartilhe sobre mim ou não’. Diferente de, por exemplo, um álbum de foto que o pai e a mãe tem e vai mostrar para os amigos, vai mostrar para o vizinho, que fica circunscrito dentro de um núcleo mais protegido.
Já quando a mãe ou o pai postam essas fotos nas redes sociais, essa criança passa a ter uma exposição que, muitas vezes, foge do próprio controle dos pais. Como é uma imagem que cai na rede e ganha dimensões completamente desproporcionais e fora de controle, essa foto eventualmente pode até prejudicar algo no futuro. Vamos pensar num adolescente que teve acesso a uma foto de infância. Então, em casos de bullying, em casos de violência, em casos de exposição da imagem da criança, hoje também com as questões muito evoluídas da inteligência artificial.
Em linhas gerais, essa exposição tem que ser feita de uma maneira bastante cuidadosa, preferencialmente dentro de redes fechadas, com o compromisso das pessoas de não divulgar. A gente precisa usar o recurso para o bem que ele tem também.

