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13 MAR 2012

Nordeste em rede






Diário de Pernambuco - 13/03/2012 - [ 1 ][ 2 ][ 3 ][ 4 ][ 5 ][ 6 ][ 7 ][ 8 ][ 9 ][ 10 ][ 11 ][ 12 ]
Autor: Silvia Bessa
Assunto: Banda Larga

Uma revolução social e de costumes ganha território nos rincões do Nordeste do Brasil. O movimento saiu das lan houses das áreas pobres do interior e da capital, expandiu-se pelas zonas rurais, entrou nas casas e em comunidades. Promoveu grandes transformações coletivas, sociais e culturais. O cotidiano de famílias, associações e escolas foi alterado. Percorremos 11 mil quilômetros, nos nove estados da região, e constatamos que o Nordeste está atravessando uma nova fronteira - a fronteira digital.

O acesso a computadores, celulares e à web formou redes de comunicação no mundo real. São redes que têm a internet como ferramenta de apoio e que ligam cidadãos em torno de interesses comuns. É um fenômeno novo, estágio avançado da inclusão digital. Investigamos as mudanças provocadas em um lugar que teve quase o dobro do crescimento do número de internautas nos últimos cinco anos. O Nordeste aumentou 213%; o Brasil, 112%, diz o IBGE - embora muitos continuem excluídos. É o mesmo que desponta no topo do ranking de acessos a sites de relacionamentos virtuais (75%). Este especial multimídia mostra a inclusão para além da lan house e do Orkut, Facebook, Twitter, YouTube e outras redes sociais - algo que também já foi popularizado neste território. Gráficos e quadros ilustram o Brasil do qual estamos falando; entrevistas com especialistas e links para estudos fornecem informações extras para os interessados. Textos, vídeos e o mapa das cidades visitadas desvendam nomes e sobrenomes dos que desenham esta nova geografia sociodigital, a nova fronteira das expressivas mudanças que vêm ocorrendo no Nordeste.

A reportagem percorreu os nove estados do Nordeste. Ao todo foram 11 mil quilômetros. Entrevistamos mais de 50 pessoas. Selecionamos histórias dos seguintes municípios:
• Antonina do Norte (CE)
• Arari (MA)
• Canguaretama (RN)
• Francisco Macêdo (PI)
• Itabi (SE)
• Itapagé (CE)
• Lençóis (BA)
• Mata Grande (AL)
• Montanhas (RN)
• Mogeiro (PB)
• Nova Olinda (CE)
• Picos (PI)
• Recife (PE)
• Rodelas (BA)
• Salgueiro (PE)
• São José do Piauí (PI), povoado Atalho
• Solidão (PE), povoado Pelo Sinal
• Taperoá (PB)
• Taúa (CE)
• Umburanas (BA)


"Intemete" bate à porta

Menino novo da zona rural prefere hip hop ao forró típico. Idoso diz que, apesar de nunca ter usado computador, está presenciando transformações anunciadas por Padre Cícero, cultuado por muito nordestino do interior como o maior milagreiro e profeta das redondezas. No Sertão de Alagoas, um dos três estados mais miseráveis do Brasil, a pobreza convive com as mudanças trazidas pela onda digital.

O Sítio Serra do Sobrado, zona rural do município de Mata Grande, a 266 quilômetros de Maceió, até hoje não tem internet nas residências nem dispõe de centros comerciais para o acesso pago, as lan houses. No entanto, já reúne histórias evidenciando que caiu na rede mundial de computadores. Está ligado na era digital, reformulou o modo como vê o mundo, como se relaciona e faz parte dele. A família Moura descobriu há cinco anos o poder da web. Seu Antônio de Moura, aposentado de 92 anos, ficou surpreso quando chegou a notícia de que jornalistas de Mata Grande (AL) e de Upanema (RN), delegados de polícia e prefeitos dos dois municípios, separados por 563 quilômetros, uniram-se para trazer o irmão dele de volta para casa, depois de 15 anos desaparecido. "Foi, foi essa tal de intemete mesmo. Foi ela".

Seu Otacílio de Moura, irmão deficiente mental de seu Antônio e que fugira do sítio onde morava com a família, chegou desnorteado na delegacia de Upanema. E-mails para cá, postagens em sites para lá, e descobriu-se a sua família. A busca por ele começou por iniciativa do jornalista Anaximandro Eudson, de Upanema. Chegou até Walter Medeiros, que nasceu em Mata Grande e escreve um blog sobre a cidade (http://omatagrandense.blogspot.com/). Walter, que hoje vive em Natal, arregimentou o aposentado Germano Alves, morador de Mata Grande para ajudar na mobilização a fim de encontrar parentes de seu Otacílio. Germano contou com a bancária Valderez. Pronto, a comunicação via web levou pistas do desaparecido até o sítio.

Enfim, seu Otacílio foi resgatado pelo sobrinho Cícero numa longa viagem de ônibus. "Sou analfabeto, não sei nada do mundo, mas quando avistei meu irmão aqui no sítio vi como esse negócio de computador roda o mundo", afirma seu Antônio. "Lógico que agora sei o que é computador. Minha filha, nunca usei um computador, mas já vi mais de mili vezes. No cartório, no fórum, na casa de meus filhos."

Sobre a web, entende pouco, mas fala dela com precisão: "Nunca usei computador ou intemete, mas sei que é um equipamento que está mudando tudo. Foi do jeito que Padre Cícero disse que era". Seu Antônio é prova de que o poder da internet vai muito além das máquinas. No Brasil, no Nordeste ou no interior de Alagoas. O estado de Alagoas ainda tem baixo percentual de inclusão digital. Dos 842,6 mil domicílios do estado, apenas 132 mil possuem computador e são ligados na internet (15,7%). Ainda assim, quem da tecnologia se beneficia pode contar suas mudanças.

Vizinho de seu Antônio de Moura, o jovem Diego Lisboa faz parte de uma outra estatística. Ele acessa a internet há menos de um ano pelo telefone celular e pode ser incluído no Nordeste que se destaca pelo aumento na posse de celulares e no Brasil rural que se sobressaiu por crescer 10 pontos percentuais na aquisição desse tipo de aparelho, conforme mostra estudo do Comitê Gestor da Internet (CGI).

Conectando-se pelo celular, Diego conheceu as músicas do grupo de hip hop Black Eyed Peas, que parecem destoar em um território no qual os acordes do forró e do brega predominam. É em cima de uma pedra que Diego consegue o melhor sinal para ampliar sua lista de músicas preferidas e descobrir o que há de novo na rede. "Nesse lugar, o sinal é mais rápido", explica. Ele se acomoda sentado na pedra assim que acorda ou no final da noite. O jovem, de 15 anos, mudou o gosto musical e, pelo volume de garotos que costumam ficar ao redor dele ouvindo as batidas do grupo da Califórnia (EUA), deve influenciar as preferências dos amigos.

O Sítio Serra do Sobrado, distante meia hora do centro urbano de Mata Grande, faz parte de um mundo digital desconhecido pelos estudiosos da área de tecnologia. Pode-se dizer que este território do Sertão alagoano usufrui das novidades de um direito recém-conquistado. Desde o ano passado, a internet foi elevada à categoria de direitos humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Em um relatório, publicado em 2011 (a versão original em inglês aqui), justifica a decisão. Diz o documento que acesso à web é um facilitador de outros direitos - econômicos, sociais, civis, políticos, associativos e culturais. Leva conhecimentos antes inatingíveis para alguns povos. Mata Grande e o Sítio conhecem a teoria na prática.

Princípios Gerais da ONU sobre o direito à liberdade de opinião e expressão e à internet

- O direito à informação deve ser valorizado por ser ela um facilitador de outros direitos fundamentais, inclusive econômicos, sociais e culturais, bem como direitos civis e políticos. E por permitir a participação do progresso científico, o direito à associação e de reunião

- O efeito revolucionário da internet é comparado a poucos mecanismos de desenvolvimento humano. Diferentemente dos outros meios de comunicação - como rádio, televisão, jornais e revistas - a internet representa um salto significativo para a interatividade. Indivíduos deixam de ser receptores e passam a ser editores ativos de informação

- A internet tornou-se um dos principais meios pelos quais o indivíduo pode exercer as liberdades de opinião e expressão, garantidas pelo artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O texto do artigo 19 trata do direito de o cidadão poder procurar, receber e transmitir ideias de todos os tipos

- A plataforma da internet é valiosa em particular em países onde não há imprensa independente, nos quais indivíduos podem compartilhar opiniões. É valiosa também porque os produtores de mídia tradicional podem usar a internet para expandir audiência a baixo custo. A internet permite a alguns povos um conhecimento antes inatingível

- O potencial da internet está nas suas características únicas, como velocidade, alcance mundial e relativo anonimato. A rede permite divulgar informações em tempo real e mobilizar pessoas que criaram temor entre governos e poderosos. Prova é que gerou aumento de restrições

- O uso da internet deve seguir o que é previsto em lei, como a preservação da reputação de outros, a ordem e segurança pública e respeito à proteção da criança. Da mesma forma, não deve servir para a propagação do discurso de ódio racial, religioso e difamação e outros casos como incitação ao genocídio

* Tradução livre do relatório original publicado em inglês sob o título "Report of the Special Rapporteur on the promotion and protection of the right to freedom of opinion and expression", cujo relator é Frank La Rue

Fonte: Organização das Nações Unidas (ONU) - Assembleia Geral, 16 maio de 2011

Nordeste lidera no crescimento de internautas

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o Nordeste de Diego, seu Antônio e de três dezenas de entrevistados para este especial desponta como a região com o maior percentual de crescimento na quantidade de usuários da internet nos últimos anos.

Entre 2005 e 2009, último comparativo apresentado pelo Instituto, a taxa de internautas daqui passou de 11,9% para 30,1%. O salto, correspondente a 213%, representa o dobro do brasileiro e foi revelado pela Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílio (PNAD), divulgada em 2010 (resumo aqui e resultados mais completos aqui).

Abaixo do Nordeste, aparece o Norte com 171% de aumento de usuários nesse intervalo de tempo, tendo passado de 4,46% para 22,64% de cidadãos conectados. O Nordeste líder no crescimento de internautas e destaque em outra estatística - de internautas plugados em redes de relacionamentos virtuais - mantém-se há décadas com os mais baixos indicadores de desenvolvimento humano do Brasil. Tem 53 milhões de pessoas, concentra 27,8% da população, porém responde por apenas 13,1% da riqueza nacional.

A região é sinônimo de desigualdade regional, mas também de superação - conforme desnudam as estatísticas e as histórias desta reportagem.


A oca virtual de 32 povos indígenas

Índio Tuxá de Rodelas, Júnior Thyrú Tuxá foi o primeiro da tribo a concluir uma graduação na Universidade Estadual de Feira de Santana, município a 440 quilômetros de Rodelas, interior da Bahia. Cursou História e, em seu trabalho de conclusão, escreveu sobre as "Sociedades indígenas na rota do desenvolvimento". O feito de Júnior Thyrú Tuxá, citado com orgulho pelos mais jovens, ganhou divulgação junto a 32 etnias de todo o país pelas mãos de Jandair Tuxá, espécie de repórter multimídia que fotografa, escreve e divulga a tribo onde ele e o amigo Júnior nasceram.

Jandair já escreveu mais de 50 textos somente para o portal www.indiosonline.net, a mais exitosa experiência de rede de comunicação virtual dos índios brasileiros na internet. Jandair é um dos colaboradores do site fundado no Nordeste e que hoje conta com a participação de quinze povos da região e outros 17. Por meio do indiosonline.net, os índios divulgam conquistas, trocam informações sobre a cultura, cobram direitos sociais e melhores condições de vida para as tribos.

Propagam a formatura de Júnior Thyrú Tuxá, os confrontos dos Guajajaras em Mato Grosso com fazendeiros, a oficina de vídeos na aldeia Tamandaré do povo Tupinambá de Olivença (Ilhéus, Bahia) ou a reivindicação da obra de pavimentação prometida pelo prefeito de Tacaratu (Pernambuco) aos Pankararus."O índio novo fez do computador arma", diz o pajé dos Tuxá, Armando Gomes Opaco. Ele nunca usou uma máquina, mas ficou convencido de que, se não for pelo arco e flecha digital, a história da sua tribo e as reivindicações locais não chegarão a outros estados, povos irmãos ou autoridades públicas. Afirma o pajé: "Sem o computador, o índio não é declarado em canto nenhum. Com o computador, o povo fica sabendo da gente".

Hoje, 878 índios voluntários fazem parte do IndiosOnLine e abastecem o portal de notícias, postam no canal de vídeos criado no YouTube (http://www.YouTube.com/user/indiosonline) e ajudam a fornecer conteúdo para a conta do Twitter (@indiosonline). A maioria usa computadores instalados em residências, telecentros erguidos nas aldeias, em lan houses próximas ou escolas.

Quando estão em locais de acesso difícil e onde não há sinal de internet, como é o caso do Morro do Surubabel onde os Tuxá promovem rituais sagrados, os índios colhem as informações e as levam até outros computadores plugados na web para transmití-las. No processo de apuração das notícias, os celulares têm sido fortes aliados dos índios para a produção de vídeos caseiros. Desde 2009, há o canal Celulares Indígenas, cuja proposta é produzir vídeos e postá-los com mais rapidez.

O portal idealizado pela ONG Thydewá (http://www.thydewa.org/) contabiliza 2.168 milhões de acessos desde que foi fundado, em abril de 2004. Conta com parceiros importantes, como o Ministério da Cultura (http://www.cultura.gov.br/site/), que passou a considerá-lo um ponto de cultura viva. O site começou com sete etnias (Kariri-Xocó/AL, Xucuru-Kariri/AL, Pankararu/PE, Tumbalalá/BA, Kiriri/BA, Tupinambá/BA e Pataxó-Hã-hã-hãe/BA) até chegar aos 32 povos tradicionais reunidos numa espécie de oca virtual.

"Há 20 anos, não tínhamos energia e nem televisão. Então, o acesso à informação era por meio da oralidade, repassada de um antepassado para outro. Mas tivemos que nos adaptar", afirma Sandro Tuxá, liderança jovem dos Tuxá. "Com o tempo, a gente entendeu que a informática era um veículo muito importante para a nossa luta, para socializar e difundir as informações porque não é todo mundo que vai chegar numa comunidade como a nossa e nos enxergar como indígena. Então - frisa ele - o portal é muito bom porque a gente consegue contar a história sob nosso ponto de vista".

A rede do portal IndiosOnline interliga os Tuxá de Rodelas, aos Pataxó Hã Hã Hãe (BA), os Pankararu (PE), os Xavante, os Makuxi (veja lista completa abaixo) e outras tantas tribos. Sobrepõe-se aos números da inclusão digital no Brasil e na Bahia, estes ainda muito baixos. Segundo o IBGE, dos 4 milhões de domicílios do estado, só 19,5% possuem computador e internet.

Colaboram com o www.indiosonline.net as etnias listadas abaixo. As grafadas em negrito são do Nordeste:

1 -Tumbalalá
2- Kaimbé
3 - Kariri-Xocó
4 - Bakairi
5 - Truká
6 - Karajá
7 - Kaingang
8 - Gurani Ñadevá
9 - Xerente
10 - Tikuna
11 - Krenak
12 - Baniwa
13 - Kamayurá
14 - Fulni-ô
15 - Tapeba
16 - Xavante
17 - Makuxi
18 - Wapichana
19 - Guarani Kaiowá
20 - Terena
21 - Tuxá
22 - Pankararu
23 - Tupinambá
24 - Pataxó
25 - Pataxó Hã Hã Hãe
26 - Tukano
27 - Potiguara
28 - Arara
29 - Xucuru
30 - Guarani
31 - Tabajara
32 - Xucuru-kariri

"Internet é como um canivete suíço.
Tem mil utilidades"

O sonho de Samira Gomes, de 17 anos, é ser jornalista. Só fala disso e parece insaciável para matar as curiosidades acerca da profissão. Na data em que se comemora o Dia do Repórter, 16 de fevereiro, postou no Facebook fotos da primeira experiência dela defronte às câmeras, como aprendiz da TV Pelourinho. Há dois anos, Samira começou a fazer suas descobertas sobre a comunicação, o uso das tecnologias e ampliou sua participação na internet e nas redes sociais virtuais.

Havia começado as incursões quando virou aluna de um curso na ONG Araçá Mirim (www.aracamirim.org.br), em Lençóis, a 425 quilômetros de Salvador. Samira, então bolsista do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), tornou-se monitora de meninos e meninas do telecentro da Ong. Passou a tirar dúvidas de alunos do curso a distância. "Fui apresentada a um mundo novo por Marília e adorei. Minha vida hoje é outra", afirma, referindo-se à Marília Pinto, organizadora da Araçá Mirim e espécie de agitadora tecnológica e educacional de Lençóis, município de 10.300 habitantes localizado na Chapada Diamantina.

A pedagoga Marília se utiliza da tecnologia para capacitar jovens de Lençóis e de outros municípios da região da Chapada a fazerem parte na cadeia produtiva e profissional do turismo, principal fonte de renda da região. "Tenho uma preocupação com a sustentabilidade do planeta. Para mim, ser sustentável é encontrar capacidade de desenvolvimento para que futuramente os outros tenham acesso às mesmas coisas que temos hoje". Para ela, a sustentabilidade "passa pela internet e pela educação".

Samira entendeu a filosofia de vida de Marília e ouve com frequência a tutora fazer a comparação entre a web e o canivete suíço escondido nela: "Digo aos meninos que a internet tem milhões de funções. Como um canivete suíço que, muitas vezes, a gente só usa para cortar unha. O canivete tem mil utilidades. Serve até para palitar dentes".

O trabalho da ONG foi vitorioso na categoria "Inovação e Sustentabilidade" do Prêmio Telecentro Brasil 2011, organizado por um grupo de entidades, incluindo o Ministério da Ciência e Tecnologia. No ano anterior, havia conquistado o Prêmio ARede, do Instituto Itaú Cultural (SP), igualmente pela atuação para reduzir a exclusão digital, usando a educação para mobilizar jovens na região da Chapada.

"Quero utilizar todo o meu aprendizado desses cursos na minha realização profissional. Tem muita gente aqui pensando da mesma forma. O telecentro é lotado de crianças e jovens e todo dia tiro dúvidas de gente de toda a região, alunos de cursos de educação à distância oferecidos pela Araçá", conta Samira. A ONG Araçá Mirim atua numa região brasileira com indicadores de educação muito elevados. A taxa de analfabetismo no semiárido do Nordeste, boa parte da área visitada pela reportagem deste especial, é de 22% da população, duas vezes maior que a taxa brasileira (9%)

Internet e futebol, as diversões de Umburanas

Umburanas, a 407 quilômetros de Salvador, apareceu com mais frequência nos sites noticiosos depois que o Ministério do Desenvolvimento e Combate à Pobreza informou em 2011 que se encontra na Bahia a maior proporção de pessoas em condição de pobreza extrema; e após o governo estadual afirmar que o município está no topo da lista dos mais miseráveis.

Mas, na internet, esta é uma única face de Umburanas. Existem várias outras. Páginas da web e uma visita à cidade mostram uma segunda face de Umburanas, feita de tradições culturais, festas tradicionais e paixão pelo futebol. Momentos alegres e coloridos estampam vídeos publicados no site de compartilhamento YouTube, com imagens dos festejos da Roda de São Gonçalo.

Tradição de origem portuguesa iniciada na cidade na década de 60 por dona Jovita, a dança de roda e de vestimentas tradicionais tem registros históricos de uma Umburanas rica. Outra Umburanas é a dos jogadores do time de futebol Boca Juniors - cópia do time famoso da Argentina, que criou um blog para aproximação e divulgação dos atletas (http://bocajuniorsumburanas.blogspot.com/). "Ele nos deu uma repercussão muito boa e animou os atletas que estavam longe dos campos para voltarem ao treino", diz o treinador do time e motorista de uma ambulância do município, José Carlos.

O técnico do time, que existe há 11 anos, tem estádio e treino diário no final da tarde, atua como um pai para os meninos do Boca nas horas de diversão. "Para nós, que moramos numa cidade muito pobre e sem lazer, a internet e o futebol dão a oportunidade da gente guiar esses meninos, conscientizá-los para que eles não entrem no alcoolismo tão comum no interior". O blog do Boca Juniors deixou de ser atualizado pelo fundador e dono de uma das duas principais lan houses na cidade, Fábio Ribeiro, da Tropic@lNet. Ele considera que a página cumpriu sua função de dar repercussão ao time, e será sempre um instrumento à disposição para uso a qualquer momento. Os jovens que fazem parte do Boca Juniors de Umburanas ganharam independência na internet e muitos deles têm hoje suas próprias contas em sites de relacionamento como Orkut, Facebook e Twitter.

No Twitter, aliás, Umburanas anda mais moderna que muitas capitais nordestinas. Apresenta-se com uma conta oficial (@Umburanas_Bahia), que publica links com notícias da cidade e vizinhanças.


Em Tauá é uma inovação atrás da outra

Até o bilionário brasileiro Eike Batista, um dos homens mais ricos do mundo, resolveu investir em Tauá. O grupo dele, MPX, ergueu uma usina solar no município. Localizado no Sertão do Ceará, a 337 quilômetros de Fortaleza, com 55 mil habitantes, Tauá tem a maior parte de sua renda oriunda da agricultura. Sem água ou outro bom atrativo para indústrias, era uma cidade nordestina comum. Mudou o perfil quando transformou a tecnologia em uma alternativa para o desenvolvimento, diferencial nesta região de seca e de poucas oportunidades.

Tauá se fez exemplo de inclusão digital no Brasil. Usa a informática e a internet para ampliar negócios, promover a inclusão de jovens e melhorar a vida prática do cidadão, com programas voltados para a educação, o trânsito e a saúde. Hoje, o município parece estar em uma fase amadurecida quando se trata de utilização das tecnologias. Enquanto muitos gestores estão pensando na expansão do sinal de banda larga, Tauá experimenta programas de computação que se integram à vida cotidiana das pessoas.

Átila Sidran e Jorge Pedrosa são desse Sertão plugado e em desenvolvimento. Os dois são estudantes de baixa renda do município e estudantes da Escola Profissional Monsenhor Odorico de Andrade. Foram responsáveis pela criação de um projeto que visa facilitar a rotina dos agentes de saúde da família. Orientados pelo professor Roberto Carlos e pelo secretário de Tecnologia do município, Elvis Narciel, eles colheram informações para montar um bancos de dados que está sendo implementado em 100 notebooks que serão entregues aos agentes de saúde.

A inovação vai facilitar o trabalho de Selma Torquato e outras dezenas de agentes de saúde do municípios. Já estão sendo capacitados para usar o banco de dados. Dentro de pouco tempo deixarão de andar com o calhamaço de fichas de pacientes penduradas nos ombros. "Vamos melhorar sobretudo em qualidade porque hoje é muito difícil decorar o que se passa com minhas 175 famílias, cerca de 600 pacientes", afirma Selma. O programa de cadastro dos agentes irá ligar os dados colhidos pelos agentes aos Postos de Saúde (PSF's).

Premiada em concursos da área de inclusão digital, Tauá já é visto como referência na implantação da tecnologia para área de saúde. Em janeiro passado, foi eleito pelo Ministério da Saúde para inaugurar o Cartão SUS, programa nacional que cadastra procedimentos do usuário do Sistema de Saúde, fazendo uma ligação com a unidade de atendimento, os PSF's e os profissionais de saúde das ruas. Na primeira etapa, oito postos de saúde de Tauá foram integrados e 10 mil pessoas incluídas.

Esses projetos para a melhoria dos serviços de saúde, outros dos setores de educação, como a alfabetização digital de adultos, inclusão profissionalizante de jovens e trânsito vieram no rastro de outro projeto desenvolvido no município e que ganhou projeção nacional: o Bode-Fone, um orelhão habilitado a usar o sistema de ligações via banda larga, o Voip. O Bode-Fone oferece ligações a baixo custo ao cidadão que quer dar um alô à parentada de São Paulo ou de outros estados do país. Usando o Bode-Fone instalado no prédio da secretaria de Ciência e Tecnologia, a ligação é de graça. Por isso, nos finais de semana há filas na sede do projeto. Hoje, existe um único exemplar do orelhão. O secretário de Tecnologia promete instalar novas unidades nos povoados, agora que o sinal da web foi estendido aos distritos.

A maioria dos projetos de Tauá é financiada pela receita obtida pelo provedor público criado pela prefeitura. Ele reduziu o custo final da conectividade em 70% e ampliou o sinal de acesso à web na cidade. Atualmente, há cerca de mil pontos de acesso à internet aqui. Calcula-se que mais de 52% dos habitantes de Tauá estejam conectados à internet. "Tecnologia em cidade pequena é melhor e mais barata que qualquer obra estruturante", diz o secretário de Tecnologia, Elvis Narciel. Ele comemora a cobertura de 100% do território com sinal da web através de antenas transmissoras, a sondagem da multinacional Microsoft para desenvolver projetos em parceria com a prefeitura, honrarias recebidas pelas experiências promovidas no programa Cidade digital (http://tauadigital.net/), e a escolha de Eike.

PRÊMIOS NACIONAIS
Tauá foi uma das cinco cidades da América Latina que mais reduziram a exclusão digital, segundo o ranking Motorola Solutions 2011. Foi a única do Brasil a receber esta distinção. Ficou ao lado de San Luis, Mercedes e Marcos Paz (Argentina) e Medellin (Colômbia).

Veja aqui:
http://www.guiadascidadesdigitais.com.br/site/pagina/municpio-cearense-de-tau- lidera-no-brasil-esforos-para-reduo-de-assimetria-digital. Havia conquistado no ano passado a décima colocação em outro ranking dos municípios mais incluídos do Brasil, o Índice Brasil Cidades Digitais, trabalho da empresa de pesquisas em tecnologia CPqD e da Momento Editorial:
http://www.cpqd.com.br/imprensa-e-eventos/fatos/299-fatos-185/5539-cpqd-e-momento-editorial-lancam-o-indice-brasil-de-cidades-digitais-municipios-sao-premiados.html).

Um blog contra a corrupção

Em Antonina do Norte, cidade do Ceará de 6.916 habitantes, um blog impulsionou comerciantes, professores e autônomos para a fiscalização de contas públicas e combate à compra de votos. O site www.alertaantonina.org divulga notícias do semiárido cearense no entorno da microrregião Várzea Alegre, ensina a criar organizações não governamentais, disponibilizam arquivos de livros sobre combate à corrupção no Brasil e reproduz notícias que tratam das restrições a políticos com ficha suja, como são chamadas as pendências junto à Justiça Eleitoral.

A presença da ONG, cujo nome completo é Movimento Popular Alerta Antonina (Mopaan), no meio virtual atesta a familiaridade da cidade com a internet. Há cinco anos, Antonina do Norte sequer tinha telefone fixo, mas a internet via rádio já atraía muitos usuários da web e lotava lan houses no centro comercial do pequeno município. O estágio de inclusão digital de hoje em Antonina do Norte é outro.

O www.alertaantonina.org mantém o acompanhamento político do município, localizada a 481 quilômetros de Fortaleza. Conta com o apoio de entidades nacionais, a exemplo da Amarribo Brasil (entidade nacional de combate à corrupção). Tem, além do blog, uma página no Facebook (mopaan.alertaantonina) com 2.540 amigos, através da qual interage com os leitores e divulga seminários e notícias. "É como diz a página inicial do blog: 'Ousamos defender nossos direitos'", afirma Francisco Fernandes, o Paulista, gestor do site, que hoje o administra do Rio de Janeiro, de onde deu entrevista por telefone para a reportagem. Francisco afirma que está no Rio porque sofre ameaças de políticos locais, em virtude das postagens e articulações do blog.

O fundador da ONG e blog deixou a cidade no ano passado. Mesmo de longe, no entanto, alimentou o www.alertaantonia.org e, por meio dele, projetou uma denúncia sobre o uso de transportes escolares. No dia 30 de agosto do ano passado, uma denúncia divulgada no site virou matéria de grandes sites de notícias, como o G1, e de redes de televisão da capital, Fortaleza. Dizia que os veículos destinados a estudantes, alguns estilo pau-de-arara, eram alugados por vereadores e aliados governistas para servir ao município. O caso foi investigado pelo Ministério Público Federal.

No segundo semestre do ano passado, dois ônibus e um micro-ônibus novos chegaram à Antonina do Norte e o serviço de locação para algumas regiões foi suspenso. Os estudantes, que agora usam os ônibus amarelo e preto, adoram o conforto dos veículos. Os pais elogiam a segurança no transporte oferecido aos filhos.

"Tudo é questão de informação. Hoje, a população não só de Antonina, mas do Brasil, tem uma visão mias apurada politicamente em face das informações a mídia, seja virtual ou impressa", diz o promotor do muncípio, Edgar de Medeiros, perguntado sobre o benefício de um blog numa cidade pequena como Antonina. "Isso ajuda muito a questão da democracia, agora ressalto: desde que seja feito com responsabilidade".

Um notebook e o sonho de trabalhar no Google

Édson Célio nunca soube o nome da senhora que lhe doou um computador. A sugestão da doação foi do professor Ricardo de Mesquita, da escola de Educação Profissionalizante Adriano Nobre, onde Édson estuda, em Itapagé, a 170 quilômetros de Fortaleza (CE). O professor resolveu tornar realidade o sonho do aluno esforçado que adorava o mundo online, mas que não tinha condições financeiras de comprar um computador. Um dia, Ricardo avisou aos colegas que era dia de surpresa para Édson e entregou o notebook quando ele entrou na sala de aula.

Édson não largou mais o notebook. "Desse dia em diante minha vida mudou beeem muito". A família dele, que mora em uma casa de taipa no povoado de São Joaquim, zona rural do município, passou a ver o jovem mais comunicativo e requisitado pela vizinhança. "Quando eu chego no povoado, o meu Sertão, está todo mundo me procurando e pedindo ajuda. É lotado", narra. "Acho isso legal", reconhece ele, driblando sua timidez.

Crianças buscam suporte para ampliar o rol de músicas nos seus pen drive, vizinhas pedem dicas de pesquisas escolares orientação ou querem dicas sobre como instalar os cabos dos micros recém-comprados para esperar o sinal de internet chegar a São Joaquim. "O Sertão sem internet estava pequeno para meu filho. Agora não está mais. Ele passa a semana lá na cidade e vem pra cá no sábado", conta Ana Célia, de 36 anos, artesã e mãe do garoto, que deixou o filho passar alguns dias com a tia.

Édson Célio usa um sinal via modem, disponibilizado pela escola, cujo curso técnico ele concluiu no final do ano passado. Quando conecta o computador portátil, reencontra a turma e tira dúvidas online com os amigos ou com o professor preferido, Jober Melo, de informática. "A gente precisa estar atento porque até o Enem colocou as redes sociais como tema de redação", justifica o jovem.

Ele conversa e brinca com os colegas via Facebook ou MSN, do mesmo jeito que muitos meninos da idade dele da capital. "Se não fosse a mulher, o professor e a escola, eu ia continuar minha, sem pensar para frente". Hoje, os pensamentos de Édson, que tem 16 anos, vão longe: "Meu sonho meeesssmo é trabalhar no Google. Pode demorar, mas posso conseguir".


Seu Cré descobre
o real no virtual

O principal diretor do Sindicato dos Trabalhador Rurais de Arari, a 170 quilômetros de São Luís (MA), Crescêncio Corrêa passou três décadas se comunicando com os lavradores da região em auditórios e assembleias a campo aberto, usando apenas o gogó - lembra ele. "Aí ganhei um programa de rádio". A ajuda da internet veio nos últimos anos, como uma evolução natural. "Tem feito um sucesso danado. Principalmente entre os jovens".

Seu Cré, como é conhecido na cidade do interior do Maranhão, agora comanda um programa de variedades na Rádio Cidade Vitória AM (http://www.radiocidadedevitoria.com.br/), que é transmitido online pelo site da emissora e por caixas de som afixadas em postes na cidade, sempre das 9h às 9h45 nos sábados. Por meio do programa, tira dúvidas enviadas pela web ou pelo telefone sobre a produção agrícola local.

Ele nunca usou um computador, mas há 15 anos trata a máquina como amiga e orienta assessores a usarem a internet em favor do homem da lavoura. Em 1995, seu Crescêncio comprou um computador de mesa - o primeiro do município - e o instalou na sede do sindicato. "Hoje em dia, conseguimos benefícios mais rápido. Tudo é online, usando a internet. Agilizamos várias solicitações com empresas públicas de Brasília", afirma ele.

Na Rádio Cidade Vitória, cumpre o mesmo papel que exerce no sindicato – o de porta voz de agricultores. "O amigo Crescêncio defende nós, que é fraco. Na rádio ou na tal da intenet que ele fala na rádio. Sempre foi assim com Crescêncio no sindicato. Do ano de 70 para cá", afirma o lavrador Filomeno Romão, cultivador e vendedor de melancias. Conta seu Filomeno, ouvinte assíduo de seu Cré na rádio, sempre ouvir perguntas de usuários da internet. "Lógico, se um tem dúvida e bota a boca no trombone, a resposta serve para todo mundo que escuta o programa", explica Filomeno.

Cidade de 28.344 habitantes, Arari parece ter enraizada a cultura do uso da internet. Tem uma agência de notícias mantida pelo Fórum da Juventude de Arari (http://arariagencia.wordpress.com/) e blogs atuantes (o http://barrosailton.blogspot.com/, do professor Ailton Barros é um deles). Existe ainda um site oficial eficiente, gerenciado por um dos maiores admiradores de seu Crescêncio, o jovem Cleilson Fernandes.

O site (http://www.arari.ma.gov.br/) tem uma estrutura de redação de dar inveja a algumas cidades desenvolvidas. Para ele, trabalham servidores municipais preparados para atuarem como repórteres de rua. Cada secretaria tem os seus repórteres, que vão em busca de informações junto à população ou com autoridades. Eles enviam os dados para a central e redatores escrevem as matérias para publicar no site. "Para bem da verdade, nós promovemos o real no virtual", teoriza Cleilson.

Seu Crescêncio, Cleilson, blogueiros e a juventude da região compõem uma rede de comunicação real de colaboração mútua, na qual o mais importante é a difusão da informação sobre o que acontece e os que fazem a cidade. Arari, é de reconhecer, ainda se insere numa minoria conectada dentro de um estado onde o percentual de usuários de domicílios com internet em casa é baixíssimo (9,6%).

Está, no entanto, muito bem posicionada quando se trata do aproveitamento das novas tecnologias usadas nos recôncavos de uma região que concentra 27% da população brasileira e que representa apenas 13% da participação no Produto Interno Bruto do país. Um Nordeste que há décadas enfrenta adversidades e que tem conseguido suplantar a imensa desigualdade regional do Brasil.

Unicef forma blogueiros no Maranhão

No Maranhão existem 64 blogs comandados por adolescentes para divulgar atividades culturais, esportivas e educacionais. Foram criados após incentivo do Programa de Formação dos Adolescentes do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Este ano, o município de Arari sediou em fevereiro o último encontro para a formação de novos adolescentes blogueiros. Nos anos anteriores, eles ocorreram nas cidades de Olinda Nova (Baixada Maranhense) e Humberto dos Santos (Norte do estado).

Chamada de "Educomunicação", a capacitação foi fornecida para mais de 100 participantes de 20 municípios e é tratada pelo Unicef como uma "intervenção social". Em Arari, quem a articulou foi o professor Ailton Barros, conhecido pelas redondezas de Arari pela sua atuação como blogueiro e como mobilizador juvenil (http://barrosailton.blogspot.com).

O curso para jovens blogueiros está inserido no Programa de Formação de Adolescentes, que por sua vez integra o Programa Selo Unicef (http://www.selounicef.org.br/). O selo atua nos nove estados do Nordeste, em Minas Gerais e no Espírito Santo como incentivador de políticas municipais voltadas para o desenvolvimento de crianças e adolescentes e para a cidadania. O Unicef acredita que iniciativas como essa pode colaborar para que os municípios atinjam as metas relacionadas aos Objetivos do Milênio, entre eles o fim da miséria, redução da mortalidade infantil e a promoção da igualdade entre os sexos (http://www.objetivosdomilenio.org.br/).


Luanna conecta todo mundo
no Riacho do Mufundo

Cada pedaço do Nordeste tem descoberto suas próprias maneiras de inclusão digital. No Sertão da Paraíba, o sinal de internet via rádio passa de cidade em cidade, com transmissões de torres maiores e antenas menores formando espécies de gambiarras modernas que levam a web a povoados sempre mais distantes. Foi assim que Luanna Gomes de Oliveira se conectou e vem interligando os amigos da Vila dos China, numa zona rural de acesso difícil chamada Sítio Riacho do Mufundo, a uma hora da área urbana do município de Taperoá.

Luanna, estudante secundarista de 16 anos, é usuária de redes de relacionamentos Orkut e Twitter e adora conversar via mensagens instantâneas do MSN. A rede mais ativa mantida por ela, contudo, existe fora do ambiente virtual, ainda que em torno dele. "Aqui quando a gente quer fazer trabalhos da escola ou o pessoal tem dúvida sobre a internet procura Luanna", diz a amiga de infância Bárbara de Oliveira, da Vila dos China, como é conhecido o agrupamento de casas coloridas localizadas a menos de 500 metros de onde mora Luanna.

Na casa de Luanna Oliveira, há dois computadores para servir a ela, aos colegas da Vila dos China e à sede dos irmãos menores Herbert (10 anos) e Malaquias (8 anos) pela web. "Eu e meus irmãos usamos bastante a internet. Minha mãe também já tem contas em sites de relacionamentos. Painho paga contas, lê notícias em jornais, pesquisa sobre o trabalho dele que é na prefeitura e nós todos conversamos com nossos parentes que moram em Patos (PB), São Paulo (SP) e em outros lugares do Brasil", conta Luanna.

Na Paraíba, 186.556 domicílios possuem internet, o que corresponde a 17,26% do total das residências. Em Taperoá, a 216 quilômetros de João Pessoa, parte do sinal de internet sai de Caicó, município de outro estado - o Rio Grande do Norte - por meio do provedor http://www.veloz-net.com/. Caicó fica a 141 quilômetros de Taperoá. Além de chegar às casas, o sinal atende casas comerciais e oferece estrutura para manter no ar sites como o www.taperoa.com. A página, inaugurada em 2005, é um informativo desenvolvido exclusivamente para a internet sobre o que se passa no município.

O Nordeste é a região do país que tem o maior percentual de uso da transmissão via rádio, conforme mostra pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil , o CGI (disponível aqui), 20% do total das conexões utilizam esse mecanismo. O uso da banda larga ainda é baixo aqui. O CGI é a principal instituição de consultoria da área de Tecnologia da Informação e é formada com a participação do Ministério da Ciência e Tecnologia.

A compreensão dos estudiosos do mundo inteiro é que o desenvolvimento local, principalmente em se tratando de lugares mais pobres e afastados dos grandes centros urbanos, depende da ampliação dos serviços de banda larga. Ano passado, em meados de junho, a União Internacional de Telecomunicações (UTI) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) divulgou um relatório intitulado "Banda Larga: Uma Plataforma para o Desenvolvimento (o original, em inglês, aqui). As duas entidades fazem parte da Comissão de Desenvolvimento Digital, criada em 2010, com o apoio do secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon.

O relatório da comissão, divulgado após encontro em Paris, na França, cobra políticas para a banda larga, a fomentação da competição de instalações e provedores visando o compartilhamento de informações nas comunidades e a oferta de empregos. Não importando quão isoladas ou vulneráveis sejam essas comunidades. Afirmam o estudo dos pesquisadores da Unesco, no Brasil, 1,4% do crescimento dos níveis de emprego se deu em razão da oferta da banda larga. Vale salientar, para o grupo banda larga tem um sentido amplo: é uma conexão que presta serviço ininterrupto e de alta capacidade.

Nordeste lidera no crescimento de internautas

De tanto ouvir falar dos benefícios proporcionados pela internet, a dona de casa Claudiane Alves resolveu se articular para conseguir instalar o sinal de internet no alto da Serra Sítio do Cabral, zona rural do município de Mogeiro, distante 110 quilômetros de João Pessoa (PB).

Claudiane anda para cima e para baixo com um abaixo-assinado, reivindicação que pretende levar aos donos de provedores locais e gestores municipais. "É o começo da nossa luta. Na minha cabeça, sem internet, esses meninos não vão se desenvolver. Aliás, ninguém vai progredir", diz a dona de casa. Claudiane afirma que não suporta mais ver o filho e os filhos dos vizinhos com computadores portáteis em cima de um pau-de-arara quando precisam elaborar trabalhos escolares ou querem acessar a internet para divertimento, como fazem jovens do mundo inteiro.

"Esses meninos ficam subindo e descendo a serra nesse caminhão aberto, que a gente chama de pau-de-arara, porque aqui não tem ligação nenhuma para internet. Acho um absurdo, por isso estou juntando assinaturas do pessoal para colocarem uma antena aqui", explica.

Moradores de pelo menos oito residências do Sítio do Cabral já compraram computadores - alguns, de mesa; outros, portáteis - para aguardar a chegada do sinal da internet. A dona de casa em nenhum momento fala da necessidade ou da falta que uma lan house faz no sítio. É como se ela quisesse que a zona rural onde mora pulasse a etapa das lan houses, casas comerciais que oferecem internet paga.

As lan houses ainda cumprem um papel notável de inclusão no Nordeste do país, mas aos poucos perdem espaço. Na região e no Brasil inteiro. Em 2009, pela primeira vez, a pesquisa do Comitê Gestor da Internet mostrou que o uso de internet passou o das lan houses no Brasil nas zonas urbanas. Falta a confirmação do avanço do acesso residencial nas zonas rurais.


Com a webcam, acabou a distância
entre Solidão e São Paulo

Na casa dos Brás, no povoado de Pelo Sinal, zona rural do município de Solidão, o computador ganhou lugar nobre na sala de estar da família. A televisão perdeu a graça e parece escanteada no ambiente. Ficou meio acanhada diante da interatividade vista na tela do monitor LCD 20 polegadas e facilitada pela conexão com a internet.

Pudera: o computador aumentou o tempo de convivência familiar. São Paulo, separado 2.543 quilômetros de Solidão, tornou-se mais perto e os dez filhos de seu Antônio Brás, que migraram para longe em busca de oportunidades de emprego, voltam para a casa onde nasceram quase todos os dias. Nem que seja virtualmente, juntam-se por algumas horas a seu Antônio, ao único filho que ficou em terras pernambucanas, Robson, e à mulher, Leônia – todos trabalhadores rurais.

"Com essa antena de internet que Robson colocou em casa, acabou minha solidão de pai", diz seu Antônio. A antena está no telhado da casa deles há pouco mais de quatro meses. Desde então, os Brás de Solidão encontram-se à noite, usando uma câmera e o MSN, e conversam sobre a rotina dos núcleos familiares. "Falamos coisas simples, mais ou menos como os meninos estão no colégio, sobre quem está doente…É muito bom. Só não dá para abraçar eles", lamenta dona Leônia, sempre sorridente.

Seu Antônio conta que nunca imaginou que a tecnologia trouxesse oportunidades como essas e melhorassem tanto a relação com os filhos. "Os de São Paulo incentivaram Robson e aí compramos essa antena. Para a gente, foi bom demais", afirmou, repetindo esta última frase vez por outra. Feliz da vida, seu Antônio Brás lembra a evolução dos meios de comunicação e como se davam os raros contatos que mantinha com a família há décadas: "Quando eu viajava para São Paulo passava dias esperando a resposta da carta. Em 1993, consegui depois de muita luta um orelhão para o povoado de Pelo Sinal. Veio o celular e hoje a gente fala e vê nosso povo pelo computador. É muita mudança".

A internet da família de Pelo Sinal costuma se conectar à noite, depois das 20h, quando os filhos, noras, genros e netos já têm chegado em casa do trabalho e escola. A maioria dos internautas que acessa redes sociais ou faz uso de mensagens instantâneas tem preferência pelo horário noturno. Dona Leônia, impressionada com o computador e com os bate-papos virtuais com os queridos, tem por hábito quebrar a regra. Sempre pede a Robson que ligue a internet e arrisque um encontro no meio da tarde, quando o sol de Solidão já baixou.

Outro dia, encontrou Disiane, uma das noras. Em dois minutos, começou a ouvir e rir das peripécias da neta Júlia Vitória. Disiane e vários integrantes do clã dos Brás que estão em São Paulo têm perfis em sites de relacionamentos, Orkut e Facebook. O Facebook é o preferido. Estimulado pelos que estão no Sudeste, Robson também aderiu ao site e começa a montar a sua própria linha do tempo.

A casa dos Brás, pintada de verde água, cerca de galinhas e com um orelhão abandonado bem em frente ao alpendre da casa deles ostenta o Nordeste contemporâneo. Ele é feito de residências urbanas e rurais cada vez mais conectadas e de lan houses mais vazias.

Em Solidão, que tem 5.737 habitantes e fica a 411 quilômetros do Recife, o último proprietário da lan house localizada na praça principal da sede do município, Eduardo Pereira, da Net Mani@, vendeu há pouco o ponto comercial. "Entrou em decadência. O povo começou a colocar computador em casa ou então ficou usando computadores do telecentro. Aí, eu estava no prejuízo".

Eduardo, de 22 anos, calcula ter perdido 50% da clientela. Ele repassou o ponto da lan house e montou um outro negócio, de assistência técnica de computadores residenciais no município vizinho de Afogados da Ingazeira. Para este negócio, o mercado tende a crescer. O estado de Pernambuco ainda está muito aquém no quesito inclusão digital - só 19,1% das residências têm computador e internet.

Longe de casa, perto do notebook

Os computadores portáteis viraram companhia dos caminhoneiros que circulam nas estradas do Nordeste. Entraram nas boleias para reduzir a saudade da família e atualizá-los sobre o que se passa mundo afora. "Já somos muitos simpatizantes desse sistema. Hoje em dia, tem tanto caminhoneiro com internet que já nem tem graça mais. Você vai ver uns companheiros conectados por notebooks e outros por celular", contou Robson Feitosa, que está na rodovia há 16 anos e foi entrevistado quando passava pelo trevo do município de Salgueiro, Sertão de