Inteligência Artificial amplia os riscos de manipulação eleitoral
Conecta SC - 8/1/2026 - [gif]
Autor: Francine Canto
Às vésperas das eleições de 2026, a manipulação eleitoral volta ao centro do debate público diante da consolidação do ambiente digital como espaço estratégico de disputa política. Partidos, pré-candidatos e grupos organizados intensificam sua atuação nas redes sociais, que há anos exercem influência relevante sobre o comportamento do eleitorado e os resultados das urnas, seja pela circulação de narrativas políticas, seja pela disseminação de desinformação.
AMBIENTE DIGITAL E OS PRECEDENTES DA MANIPULAÇÃO ELEITORAL
O histórico recente evidencia como o uso desregulado das plataformas digitais impactou processos eleitorais. Em 2018, por exemplo, a circulação quase irrestrita de fake news e o disparo massivo de mensagens em aplicativos como WhatsApp e Telegram ocorreram em um contexto de baixa transparência e limitada capacidade de fiscalização. À época, a utilização de bots — robôs programados para simular interações humanas e inflar artificialmente a popularidade de determinados temas — contribuiu para criar falsas percepções de consenso e relevância.
A dificuldade inicial de resposta por parte da Justiça Eleitoral e de profissionais de campanha foi explicada, em grande medida, pela velocidade das transformações tecnológicas. Desde então, regulações e mecanismos de enfrentamento foram implementados, reduzindo parte dos efeitos dessas práticas. Ainda assim, a constante evolução do ecossistema digital impõe desafios inéditos.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E MANIPULAÇÃO ELEITORAL EM ESCALA
A principal novidade em relação ao pleito de 2022 é a popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), cerca de 50 milhões de brasileiros — o equivalente a 32% dos usuários de internet no país — já utilizam esse tipo de tecnologia. Embora o uso pessoal seja apontado por 84% dos usuários, especialistas alertam que essas ferramentas podem, direta ou indiretamente, influenciar decisões políticas e eleitorais.
Estudos recentes publicados nas revistas Nature e Science demonstram que modelos de linguagem baseados em IA possuem um poder persuasivo distinto de outras tecnologias digitais. Em uma das pesquisas, mais de 2,3 mil eleitores interagiram com chatbots programados para defender candidatos opostos às suas preferências iniciais. Os resultados indicaram mudanças mensuráveis de inclinação política, superiores às observadas em campanhas tradicionais de propaganda.
Em testes realizados antes de eleições nos Estados Unidos, Canadá e Polônia, os efeitos chegaram a alterar atitudes eleitorais em até 10 pontos percentuais, evidenciando um potencial de influência significativo.
ARGUMENTAÇÃO BASEADA EM FATOS E RISCOS DE DESINFORMAÇÃO
As pesquisas apontam que a eficácia persuasiva da IA está associada ao uso intensivo de argumentos apresentados como factuais. No entanto, parte dessas informações revelou-se imprecisa ou falsa. Conforme destacam os pesquisadores:
“Examinar as estratégias de persuasão utilizadas pelos modelos indica que eles persuadem com fatos e evidências relevantes, em vez de usar técnicas sofisticadas de persuasão psicológica. Nem todos os fatos e evidências apresentados, no entanto, eram precisos.”
Outro estudo reforça a preocupação ao identificar uma relação inversa entre persuasão e precisão: quanto mais convincentes os modelos se tornavam, maior era a incidência de informações factualmente incorretas. Esse fenômeno amplia os riscos de manipulação eleitoral, sobretudo em contextos de baixa checagem por parte dos usuários.
BIG TECHS, BUSCAS ONLINE E A CONFIANÇA NA IA
A influência das tecnologias digitais sobre eleições não é inédita. Mecanismos de busca já foram utilizados para amplificar conteúdos desinformativos, explorando a confiança que parte da população deposita nos primeiros resultados apresentados. Pesquisas indicam que essa confiança tende a se repetir no uso da IA generativa: um estudo global com mais de 48 mil pessoas em 47 países mostrou que 66% dos entrevistados confiam nas respostas dessas ferramentas antes mesmo de verificar sua veracidade.
Nesse cenário, o papel das grandes empresas de tecnologia torna-se ainda mais sensível. O acesso a grandes volumes de dados de usuários confere às Big Techs um poder significativo de influência, especialmente se sistemas de IA forem utilizados como orientadores informais de eleitores indecisos.
REGULAÇÃO, ELEIÇÕES DE 2026 E OS DESAFIOS À DEMOCRACIA
Especialistas alertam que a combinação entre assistentes de IA, publicidade em serviços de mensageria e conteúdos gerados por algoritmos pouco transparentes pode gerar impactos tão danosos quanto a desinformação tradicional. James Görgen, especialista em Políticas Públicas e membro suplente do CGI.br, destaca que essas novas variáveis precisam ser consideradas nas discussões regulatórias que antecedem o próximo pleito.
Segundo ele, além de iniciativas institucionais, eleitores, partidos e organizações da sociedade civil devem investir em mecanismos de monitoramento capazes de identificar e documentar práticas abusivas, contribuindo para a atuação da Justiça Eleitoral.
Diante da experiência acumulada em eleições anteriores, o Brasil enfrenta novamente o desafio de proteger a integridade do processo democrático. Ignorar os riscos associados à inteligência artificial e à manipulação eleitoral pode comprometer a lisura do pleito de 2026, em um contexto marcado pela atuação de grandes corporações globais e pela rápida evolução das tecnologias digitais.

