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15 ABR 2026

IA na sala de aula: o Brasil precisa de um debate à altura do desafio


Nexo - 15/4/2026 - [gif]


Autor: Priscila Vieira, Monise Picanço e Graziela Castello


Pesquisa recente buscou entender quais são os principais desafios e oportunidades da incorporação dessa tecnologia nas atividades educacionais no Brasil

A IA (Inteligência Artificial) chegou às escolas brasileiras antes que a escola soubesse o que fazer com ela. Esse é, em síntese, um dos principais achados do estudo realizado pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), vinculado ao NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), com participação do Cebrap.

A pesquisa “Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro” buscou entender quais são os principais desafios e oportunidades da incorporação dessa tecnologia nas atividades educacionais no Brasil, tanto por parte dos professores quanto dos alunos. Para isso, ela adotou uma investigação qualitativa exploratória dividida em duas frentes. Na primeira, foram conduzidas entrevistas com acadêmicos, gestores públicos, representantes do setor privado de tecnologia educacional, organizações da sociedade civil e gestores escolares de redes pública e privada. Na segunda frente, foram ouvidos, através de grupos focais, professores e estudantes do Ensino Médio de escolas públicas e privadas de São Paulo e Recife.

Os atores estratégicos do campo educacional brasileiro percebem a incorporação da IA como inevitável. No que diz respeito às oportunidades, há o consenso entre eles de que a IA pode apoiar – e não substituir – o trabalho docente, pois suas potencialidades incluem a redução da sobrecarga administrativa dos professores, a personalização do ensino, o uso de dados para aprimorar a gestão educacional e a ampliação do engajamento e da inclusão de estudantes. Mas os desafios apontados são expressivos: a adoção ética e responsável da IA exige uma formação docente consistente e uma infraestrutura adequada, duas dimensões nas quais o Brasil ainda apresenta lacunas, especialmente nas redes públicas de ensino. Além disso, eles mencionaram a existência de riscos de diferentes tipos: vieses algorítmicos, ameaças à segurança e à privacidade de dados, a perda de autonomia pedagógica dos professores e o agravamento das desigualdades entre escolas com e sem acesso a recursos tecnológicos.

O Brasil precisa ampliar esse debate nas universidades, nas políticas públicas e dentro das escolas para não arcar com consequências que ampliem as desigualdades educacionais já existentes ou abandonem princípios éticos e pedagógicos que nos são caros

Durante os grupos focais, os professores reconheceram o potencial das ferramentas para otimizar tarefas administrativas e diversificar materiais pedagógicos, mas relataram insegurança sobre como incorporá-las de forma crítica e responsável ao ensino. A ausência de formação continuada específica sobre IA foi uma queixa recorrente. Muitos educadores percebem que seus alunos já utilizam as ferramentas extensivamente, mas sentem que não têm suporte institucional para orientar esse uso ou para propor abordagens pedagógicas consistentes.

Os relatos dos estudantes revelam que tal tecnologia já está muito presente na rotina escolar, mas de maneira fragmentada e sem a orientação adequada. Eles demonstraram interesse pelas possibilidades da aprendizagem ágil e personalizada que as ferramentas oferecem, mas expressaram dúvidas sobre os parâmetros éticos e pedagógicos para esse uso. Ademais, manifestaram apreensão quanto aos efeitos da automação sobre o mercado de trabalho e o futuro das profissões – a relação dos jovens com a IA é marcada por entusiasmo e curiosidade, mas também por insegurança.

Professores expuseram ainda que os estudantes utilizam a tecnologia de maneira acrítica, com potenciais riscos de aprendizagem. Perda de autonomia e do pensamento crítico e atrofiamento da habilidade de escrita estavam entre as preocupações elencadas pelos docentes. Há uma espécie de zona cinzenta: a IA está presente nas salas de aula, mas sem um enquadramento ético ou pedagógico capaz de promover a formação e a reflexão crítica e aproximar a inovação tecnológica da prática educacional.

O resultado da pesquisa revelou a existência de uma adoção acelerada e desigual da IA nas atividades escolares, dentro e fora da sala de aula, e, em grande medida, sem orientação pedagógica. Em vista desse cenário, existem ao menos três desafios centrais que o Brasil precisa enfrentar:
  • O primeiro é o da desigualdade de acesso: se a IA generativa se consolida como ferramenta de apoio ao aprendizado, sua concentração nas escolas privadas e urbanas tende a ampliar as brechas educacionais já existentes;
  • O segundo desafio é o da formação docente: professores não capacitados para usar criticamente a IA e para orientar o uso que os estudantes já fazem dela se tornam figuras à margem de um processo em curso;
  • O terceiro, de ordem estrutural, é o da ausência de diretrizes pedagógicas e políticas públicas claras: em muitas escolas, a IA chegou de forma espontânea, sem protocolos, sem reflexão institucional e sem que a comunidade escolar (professores, gestores, famílias e estudantes) fosse convidada para o debate.
A pesquisa apresentada aqui oferece evidências qualitativas sobre um fenômeno ainda carente de compreensão e que precisa de mais atenção, porque a IA transforma a relação entre docente, estudante e conhecimento. O Brasil precisa ampliar esse debate nas universidades, nas políticas públicas e dentro das escolas para não arcar com consequências que ampliem as desigualdades educacionais já existentes ou abandonem princípios éticos e pedagógicos que nos são caros.