Geração 50+ vive entre a IA que a conecta e a que a engana
UOL Notícias - 21/1/2026 - [gif]
Autor: Aline Sordili
O Brasil vive uma transformação demográfica acelerada que promete remodelar completamente a economia e a sociedade nas próximas décadas. O envelhecimento populacional, que levou 115 anos para se consolidar na França, acontece aqui em menos de 20 anos.
Essa velocidade surpreendente criou um novo e poderoso segmento chamado "geração prateada". São os brasileiros acima de 50 anos que concentram uma riqueza estimada em R$ 1,8 trilhão e representam quase um quarto de todo o consumo privado nacional.
Mas essa revolução demográfica esconde um paradoxo perigoso amplificado pela inteligência artificial. A mesma população que dominou ferramentas digitais e se tornou protagonista do e-commerce e das redes sociais é, simultaneamente, a principal vítima dos golpes digitais potencializados por IA.
A Associação de Defesa de Dados Pessoais e do Consumidor (ADDP) indica que os crimes cresceram 45% no último ano com o uso da tecnologia, que permite criar fraudes em escala.
A "Dark AI", como é chamado o uso da IA para fins criminosos, transformou o cenário. Deepfakes ultrarrealistas manipulam rostos e vozes de celebridades para recomendar investimentos falsos. Spoofing falsifica números de telefone de bancos com perfeição. E a mesma ferramenta que permite a uma marca encontrar seu consumidor ideal permite a um golpista identificar sua vítima.
Em oito anos, de 2017 a 2025, a proporção de brasileiros das classes D e E que acessaram a Internet pelo celular pelo menos uma vez nos últimos três meses aumentou de 48% para 78%, revela levantamento feito pela Blend/HSR a pedido de Mobile Time, com base nos dados históricos da pesquisa TIC Domicílios.
No mesmo intervalo, no grupo de brasileiros com 60 anos ou mais, a proporção mais que dobrou, subindo de 26,8% para 58,5%. Trata-se do avanço mais acelerado dentre todos os recortes sociodemográficos da pesquisa.
Na análise por região do país, os maiores crescimentos aconteceram nas regiões Norte e Nordeste. Na primeira, a penetração saltou de 62,5% para 85,7%. E no Nordeste, de 62,1% para 86,4%.
Hoje, 71% dos brasileiros com 55 anos ou mais se consideram digitais, segundo pesquisa da Fundação Dom Cabral. O WhatsApp, fenômeno que democratizou a inclusão digital dos maduros, é usado por 90,2% desse público como principal atividade online. A mudança de comportamento foi radical. A partir dos 40 anos, o YouTube supera o Instagram como plataforma preferida para consumir creators. Os maduros valorizam criadores e influenciadores que ajudam a aprender e ampliar conhecimentos (47%) e e fornecem dicas úteis (40%).
Esse engajamento digital transformou padrões de consumo. Os consumidores 50+ viajam, investem em educação, empreendem e buscam experiências. Nove em cada dez brasileiros acima de 60 anos ajudam financeiramente suas famílias, consolidando-se como pilares econômicos multigeracionais.
Mas essa mesma inclusão digital criou um campo fértil para a criminalidade. Os dados são alarmantes: a cada minuto, 107 brasileiros são vítimas de golpes digitais, aponta o estudo da Silverguard & SOS Golpe.
Um em cada três adultos no país foi vítima no último ano. E quando olhamos especificamente para a população 60+, a situação é ainda mais grave. A empresa já fala em uma epidemia de golpes e que isso tende a piorar com a Dark AI.
"A Dark AI já ajuda a escalar e personalizar golpes de 'spear phishing', que é se passar por fontes confiáveis. Já começamos a detectar nas denúncias casos de filtros de deepfakes em que o criminoso aparece em chamadas de vídeo no WhatsApp, com rosto e voz de um famoso que a vítima conhece, dizendo que ela ganhou um prêmio", afirma Marcia Netto, CEO da Silverguard & SOS Golpe.
O prejuízo médio de uma vítima acima de 60 anos é de R$ 4.820, cinco vezes maior que o sofrido por jovens de 18 a 24 anos. Não é que caiam mais em golpes. É que o tombo é maior. E há uma razão para isso: enquanto jovens podem ser alvo de fraudes que exploram ganância (como falsos prêmios), os golpes contra maduros usam afeto e confiança.
O "golpe do falso conhecido pedindo dinheiro", geralmente alguém se passando por filho ou filha no WhatsApp, é a tática número 1 contra vítimas 60+, atingindo 21% desse grupo. E a porta de entrada é justamente o canal que democratizou sua vida digital: para a população 60+, os aplicativos de mensagem (liderados pelo WhatsApp) são o ponto de partida de 48,6% dos golpes. O WhatsApp sozinho é responsável por 46% das fraudes contra esse público, enquanto para a população geral esse índice é de 29,6%.
"A Dark AI está tornando golpes mais convincentes. Desconfie de urgência e de 'prêmio'. Nunca faça Pix, não compartilhe a tela do banco e confirme por um segundo canal oficial (ligando você mesmo para um número confiável). Se apareceu um vídeo 'perfeito', trate como suspeito até provar o contrário. Deepfake vai virar rotina", alerta a executiva.
A Meta (dona do WhatsApp, Facebook e Instagram) concentra dois em cada três golpes digitais no Brasil. O que deveria ser a "sala de estar" digital dos maduros, um ambiente onde se sentem confortáveis e entre familiares, tornou-se o espaço onde criminosos "batem à porta" disfarçados de parentes.
No geral, são três os fatores que criam a tempestade perfeita de vulnerabilidade: influência digital, necessidade financeira e adaptação tecnológica. Segundo pesquisas, 77% dos brasileiros afirmam já ter comprado algo por recomendação de um influenciador. E o fator decisivo é a autenticidade (70%). Criminosos exploram essa dinâmica criando conteúdos e perfis falsos.
Segundo a pesquisa "Transição de Carreira na Maturidade", o principal motivo que leva profissionais maduros a buscarem mudança é "melhorar os rendimentos e condições financeiras" (50,1%). Essa pressão econômica torna-os mais suscetíveis a promessas de ganho rápido. E a lacuna entre usar a tecnologia e compreender sua arquitetura de segurança é o que os golpistas exploram.
Um relatório do IAB (Internet Advertising Bureau) mostra que a IA já virou rotina no mercado publicitário brasileiro: mais de 70% dos profissionais afirmam que a tecnologia cumpre ou supera expectativas em planejamento de mídia, segmentação de público-alvo e otimização de campanhas.
A mesma ferramenta que permite encontrar uma mulher de 55 anos que pesquisou sobre cuidados com a pele madura permite a um golpista identificar essa pessoa como alvo para uma fraude de falso procedimento estético.

