Delegada da PF alerta sobre o que atrai pedófilos nas redes: ‘Abusador vai onde a criança está’
Estadão - 13/8/2025 - [gif]
Autor: Paula Ferreira
Assunto: Proteção de crianças e adolescentes na Internet
O que é ‘adultização’? Entenda termo usado por Felca em denúncias
A ampla utilização da internet por crianças cada vez mais novas e a falta de moderação de conteúdo por parte das redes sociais tornou o ambiente digital um local ainda mais perigoso para menores.
A análise é da delegada da Polícia Federal, Rafaella Parca, responsável por coordenar nacionalmente a repressão a crimes cibernéticos ligados ao abuso sexual infantojuvenil. Em entrevista ao Estadão, ela alerta que os abusadores infantis estão em toda parte, mesmo em plataformas que à primeira vista os pais podem considerar inofensivas.
“Sempre tem essa pergunta: ‘qual plataforma é mais perigosa?’ Todas são perigosas. Por quê? O abusador está onde a criança está. E crianças estão cada vez mais novas com redes sociais, desvigiadas, sem educação digital”, diz.
Na semana passada, o influenciador Felca chamou atenção para o tema após publicar um vídeo sobre o que chamou de “adultização”. Na publicação, Felca traz um compilado de denúncias sobre influenciadores que abusam da imagem de crianças e mostra como o algoritmo das plataformas, segundo ele, funciona para entregar esse tipo de conteúdo para pedófilos.
Como o Estadão mostrou, o número de investigações sobre o tema na Polícia Federal explodiu nos últimos anos. Somente em 2024, foram instaurados 1202 inquéritos. Nesse cenário, a delegada afirma que a falta de regulação das plataformas digitais é um dos principais desafios, já que muitas delas não contribuem com a polícia.
“As plataformas digitais têm de monitorar proativamente. Só assim a gente vai conseguir melhorar, porque a polícia não vai conseguir ficar 24 horas fazendo isso. É impossível”, afirma.
Ao Estadão, o Telegram afirmou que mais de 481.670 grupos e canais relacionados a abuso sexual infantil foram removidos da plataforma no primeiro semestre deste ano, e que tem repassado dados dos criminosos para atender “solicitações legais válidas”. Em nota, a empresa disse que “aplica uma rigorosa política de tolerância zero” em relação a esses conteúdos. O Telegram afirma ainda que as mídias enviadas no aplicativo são confrontadas com um banco de dados de conteúdos semelhantes já removidos, para permitir o reenvio.
O Discord afirmou que colabora com as autoridades brasileiras em todos os níveis de governo e “oferece orientação e treinamento sobre como enviar solicitações legais adequadas, garantindo um processo eficiente e respostas em tempo hábil.” A plataforma cita como exemplo a cooperação com as autoridades na Operação Fake Monster, de combate à rede de crimes de ódio. A empresa disse ainda que reforçou equipes para identificar e remover conteúdos nocivos e aprimorou a resposta rápida a abusos. O Discord menciona ainda a “Central da Família”, que presta assistência aos responsáveis sobre como a rede é utilizada pelos filhos e com quem eles interagem.
A Meta, dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp, não respondeu aos questionamentos. O TikTok também não se pronunciou.
Veja a entrevista abaixo:
O que foi aperfeiçoado nesse tipo de crime, sobretudo a partir da disseminação das redes sociais?
O criminoso migrou para internet já tem algum tempo, e por que ele migrou? Tem uma pesquisa do Tic Kids Online de 2024 que mostra que 93% da população de 9 a 17 anos está na internet, 25 milhões de pessoas. E 98% desse número estão no celular.
Sempre tem essa pergunta: “qual plataforma é mais perigosa?” Todas são perigosas. Por quê? O abusador está onde a criança está. E crianças estão cada vez mais novas com redes sociais, desvigiadas, sem educação digital. Isso por si só já seria um um chamariz para o criminoso cibernético.
Além disso, hiperexposição. Tanto das famílias, quanto das crianças e adolescentes. Então, para nós que postamos uma foto que é uma memória, para o abusador cibernético é um dado. Se você fala onde a criança estuda, onde você trabalha, onde mora, o que ela gosta de fazer, isso tudo são dados para o abusador cibernético utilizar para se aproximar dessas crianças para o aliciamento. Ele cria um perfil falso e se aproxima usando esses dados.
Essa hiperexposição facilita. Outra coisa são as barreiras à investigação policial na internet. Existem barreiras, que não são intransponíveis, (mas atrapalham) , como o uso de VPN para esconder a conexão, uso da deep web, uso de aplicativos que não são muito amigáveis com a polícia, vide o Telegram, Signal etc.
Há a possibilidade de ser quem você quiser. Na internet tem essas facilidades que no mundo real não tem. Você não vai ver um cara de 60 anos abordando uma menina de quatro anos. Mas na internet você vai ver, porque ele vai criar um perfil, vai ver o que a criança gosta, o que a mãe faz, e vai criar uma história, uma engenharia social para se aproximar e ganhar confiança. E a gente sabe que as crianças e adolescentes hoje enxergam o mundo por meio do cibernético, do celular, das redes sociais.
O criminoso ganha essa confiança muito fácil. Tem caso em que, com cinco ou seis frases, o abusador já ganha a confiança da criança. Então, ela manda uma imagem íntima, uma informação íntima, que é a porta de entrada para o estupro virtual. Produção de material de abuso sexual infantil. Ele domina esta criança para produzir imagens, ameaçando divulgar, falar com os pais. E é uma coisa horrível.
São fotos horríveis de todos os tipos. Essa denúncia do Felca, a adultização, a exposição, com os caras se encontrando naquele ambiente, é a porta de entrada. Tem coisa muito pior do que isso que as crianças são submetidas e que vão causar traumas para o resto da vida. E elas ficam meses produzindo esse tipo de imagem sem a família sequer perceber.
Como é a dinâmica criminosa?
A rede social, e a internet em si, facilitaram muito essa proximidade. O estuprador de antigamente tinha 13, 14, 15 vítimas. Hoje, o cara tem num clique 750 vítimas, como em um caso do Rio Grande do Sul. O potencial lesivo aumentou muito.
E essa facilidade de se aproximar, porque a criança não tem previsibilidade do perigo, toda aquela questão do córtex pré-frontal que não está bem desenvolvido e não consegue detectar uma investida criminosa.
São crianças que, muitas vezes, têm aquilo que a gente chama de abandono digital, que estão o tempo inteiro na internet sem um acompanhamento em casa. Se não tem atenção em casa, alguém vai dar atenção para ela. E é isso que eles utilizam: atenção, elogio, conversa. Até ganhar essa confiança e poder fazer os crimes de toda e qualquer natureza.
A gente tem percebido muitos criminosos adolescentes que cometem esses atos infracionais. E até criança de 11 anos que faz as piores coisas que você pode imaginar com outra pessoa, com animais. Tem coisas muito perversas que os adolescentes estão fazendo como abusadores. A gente tem esse movimento mundial. É o estupro com sadismo.
Tem a parte sexual e tem a parte da automutilação. “Eu quero que corte. Mais fundo. Eu quero que você esquarteje o gato.” Vou falar coisas horríveis: Eu quero que você coloque a faca na vagina, na boca, engula uma gilete. É tão cruel, que é inimaginável. É multifatorial.
(Uma das causas é) Acesso à pornografia muito cedo, uma média de idade de 8 a 9 anos. Violência, dessensibilização. Ele vê o outro como coisa, como objeto, não vê mais como um ser humano. E se você não tem relações humanas, você não sabe o que é isso, você coisifica o ser humano.
Como essa rede de abusadores se constitui? Eles se articulam?
Tem um recrutamento às vezes vinculado a discursos de ódio, misoginia, nazismo, racismo, que na verdade é um grande pretexto para você angariar pessoas para o seu grupo. E aí grupos de vários tipos de aplicativo, Discord é o mais famoso.
A criança com aquela necessidade de pertencer a um grupo acaba entrando numa bolha e acha que o mundo é aquela bolha. E aí começa a ser bombardeado com um pensamento completamente equivocado.
E aí eles vão se agrupando de forma quase que orgânica e quando o sujeito se descobre ali, ele está no meio de um grupo de ódio.
E pertencendo a um grupo que se ele fizer algumas coisas, ele vai ser reconhecido. A gente fala da grande reconfiguração da infância, do (psicólogo Jonathan) Haidt. A infância do brincar e agora a infância do celular. As pessoas não têm mais contato social, aí dessensibiliza.
É um crime que se dá no ambiente virtual, mas há prevalência em algum Estado específico do Brasil?
Não tem. Acho que é muito espraiado.
Quais os principais entraves na investigação desses crimes?
O principal entrave é falta de pessoal para trabalhar, porque trabalho tem muito. Então, uma das nossas estratégias de combate é a cooperação, por exemplo, entre a polícia federal e polícia civil. A gente não vai dar conta de fazer sozinho.
A Polícia Civil tem uma capilaridade grande, então o que a gente está fazendo? Vou trazer os policiais civis para cá, vou treiná-los com nossa metodologia, com a nossa forma de trabalho, reunindo casos, trazendo criminosos com maior potencial lesivo, porque não dá para fazer tudo. Compartilhando ferramenta investigativa, compartilhando informação, então a gente está criando uma rede de combate ao abuso sexual infantil.
Um crime complexo desse demanda uma resposta complexa. Não é a polícia que vai resolver sozinha. É todo mundo, o Legislativo, o Judiciário, Ministério Público, ONGs, a sociedade civil. Porque os números são realmente assustadores.
Em ferramentas de investigação somos excelentes. Estou nessa área desde 2018, participo de conferências internacionais. O Brasil é sensacional. A lei não é ruim, o que precisa melhorar realmente é a responsabilização das empresas (de plataformas digitais).
Imagine só: ficar entrando no Instagram para procurar esse tipo de conteúdo e ficar pedindo para derrubar. Tem condição? Não tem jeito. É uma resposta complexa. Se a empresa não se responsabilizar, porque ela é responsável por isso, não tem como fazer. Já existe projeto de lei bom e maduro para isso.
Outra coisa que a gente tem feito muito é a cooperação internacional, policial e com as empresas. No crime cibernético, boa parte das informações estão fora do país. Agora, com as empresas é um entrave. Tem empresas que respondem muito bem e tem empresas que respondem muito mal. E os criminosos vão migrando. Então, se ele percebeu que a empresa tem fiscalização, ele vai para outra que não tem. Ele vai para outra que não fornece dado para a polícia.
(O caso do) Telegram foi uma construção. O Telegram não dava nenhum dado. Veio a decisão do Supremo (Tribunal Federal) e começou a dar alguma coisa. É ruim? é ruim, mas dá alguma coisa. Então, tem um monte de aplicativos que ninguém conhece, mas que os abusadores estão. Por quê? Porque é mais difícil de a gente conseguir informação. DarkWeb é muito usada, mas hoje você tem Telegram, Signal, Teleguard, BuzzCast, Potato. Cada hora é uma que eles utilizam, porque a gente tem essa dificuldade dos dados.
A gente está percebendo que o problema é complexo e que tem que agir por várias frentes. Uma das frentes é a prevenção.
Estamos capacitando os policiais federais voluntários do Brasil inteiro para palestrar usando material estudado, padronizado, criado por nós. Olhando o que os outros países fazem como modelo. A Safernet nos ajudou também. E os policiais são capacitados para fazer palestras em escolas, instituições congêneres para adolescentes, familiares, professores e membros da rede de proteção.
Para quê?
Para levar conhecimento, para fazer o que o Felca fez. Levar conhecimento, levar informação de como acontece e o papel de cada um. Eu não vou conseguir botar minha filha numa bolha. Então, preciso dar ferramentas para os adolescentes, no caso do nosso projeto, saberem se defender. São cinco palestras distintas para adolescentes em momentos diferentes: sobre privacidade, empatia, relações seguras, desinformação, bullying e cyberbullying.
Como é feito o monitoramento desses criminosos?
O nosso foco hoje, isso é muito importante, é o produtor do material de abuso sexual, porque quando eu tenho um produtor, eu tenho uma criança numa situação de violência atual. Dos estupros de vulnerável do país, 8% são cometidos por pessoas desconhecidas, então, essa criança só tem a polícia para fazer cessar essa violência.
Quando a gente dá o enfoque no produtor, a gente está dando, na verdade, enfoque na vítima. A gente monitora algumas redes, recebe informações de operação internacional, de provedores. A gente tem várias frentes de atuação.
Atuamos tanto proativamente, monitorando, recolhendo as informações, fazendo as operações, quanto reativamente.
Por exemplo, nós somos o ponto de contato do NCMEC no Brasil. O NCMEC é uma ONG internacional que encaminha muitas informações para nós de crimes cibernéticos.
A gente tem um sistema criado para tratar disso, porque o volume é gigante. Então, fazemos uma triagem e, depois, a priorização.
Esses criminosos são conectados internacionalmente com outros?
O crime hoje não tem fronteira. A gente está atuando com os países o tempo inteiro, porque eles formam grupos com pessoas do mundo inteiro. Então, com a facilidade de um Telegram, um WhatsApp até, de um Signal, de um Viber, eles se reúnem.
A gente prendeu um brasileiro há uns anos atrás, alvo número 1 da Dark Web. Ele mantinha cinco fóruns da Dark Web, com 1.800.000 usuários do mundo inteiro. Eles estão o tempo inteiro se relacionando.
Prendemos uma abusadora aqui em Brasília. Isso está acontecendo muito agora. Mulheres abusadoras é algo muito raro. Eu diria que mais de 90% são homens. Mas, o que a gente tem visto de dinâmica agora? As mulheres abusando dos seus filhos para vender material. Um dos compradores era um brasileiro, mas tinham estrangeiros também e vamos mandando informação para fora. Esse brasileiro que comprava o material tinha contato com outros abusadores do mundo inteiro, Ucrânia, Eslovênia e Rússia. Eles estão todos conectados.
Por isso é importante esse trabalho da Polícia Federal orquestrado com outras forças, com as empresas. Eu não demonizo as empresas. O provedor tem duas frentes, uma comercial, que é onde a gente tem que bater, e a de relacionamento com as forças da lei.
Os relacionamentos com as forças é ótimo por parte de muitas empresas, como Meta, TikTok, Discord. Eu recebi Discord semana passada aqui. Eles falaram: “Eu quero melhorar. Como é que posso melhorar?” Eles querem melhorar, mas tem a parte comercial, que é o que atrapalha tudo, que é o que o projeto de lei está querendo normatizar: dar responsabilidade civil para a atuação delas e aí elas vão ter que mudar.
Há um perfil desse abusador?
Quando eu falo em perfil, é uma coisa muito bem estabelecida. Eu não tenho um perfil. Por que eu digo isso? Tenho características marcantes: ser homem é uma delas.
Mas por que eu digo que eu não tenho um perfil? Porque eu tenho (abusadores de) todas as idades, de 11 a 89 anos; todas as profissões que você puder imaginar, até desempregado, pedreiro, policial, psicólogo, dono de universidade, PhD, tudo quanto é coisa.
A recorrência dos caras é absurda, por isso que a gente fala que tem que prender bem. Tem que fazer uma boa investigação, qualificada, uma sentença boa, porque esse cara, vai sair e vai continuar.
A senhora mencionou o ‘estupro virtual’. Pode explicar?
Esse nome “estupro virtual” não tem no Código Penal, o que tem é o estupro de vulnerável. Mas, a partir de 2016, quando a internet entrou muito forte e começaram a surgir essas dinâmicas diferentes, a jurisprudência entendeu que isso também é um estupro, só que tem um componente cibernético para ele conseguir alcançar a vítima.
Estupro é constranger alguém mediante violência ou grave ameaça para ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso. Se eu pego esse tipo penal e coloco no ambiente cibernético, o que o abusador está fazendo? Ele está ameaçando, então está constrangendo, no caso, mediante grave ameaça, a ter conjunção ou outro ato libidinoso. Não precisa de contato físico, basta a vítima com ela mesma, a vítima com terceiros ou com objetos, animais. Isso configura o estupro virtual. Essa dinâmica é assustadora hoje, muito marcante.
O que os pais devem fazer para resguardar seus filhos?
Primeiro, onde o seu filho está se relacionando? Qual o aplicativo? Como esse aplicativo funciona? Porque tem gente que acha que aplicativo de jogos é “só joguinho”.
Não, você tem chat de jogo e, normalmente, começa no chat de jogo, o cara tira a criança dali e joga para um Telegram, para um WhatsApp, aí começa o privado. Com quem ele está jogando? Será que seu filho tem noção? Será que ele tem consciência de que ele está conversando com uma pessoa que pode não ser essa pessoa (que ele pensa)? Não tem. Essa conscientização é muito importante. (Fazê-lo questionar) Por que essa pessoa está te mandando imagens sexualizadas? Se você não conversar sobre isso com o seu filho, alguém vai conversar, alguém vai iniciá-lo nisso, é melhor que seja você.
Converse sobre sexualidade, sobre privacidade. Estabeleça regras. Outra coisa (importante) é o monitoramento, ferramentas de controle. Tem gente que fala assim: “Ah, combina com a criança”. Não é bem assim. Tem coisas que não se combinam. Por exemplo, escovar o dente você vai combinar? Não. Então tem coisa que você vai dizer: “é assim que funciona, por isso, por isso, por isso.” Tem que explicar. Também não adianta esse autoritarismo sem explicação.
Seja o adulto de confiança. Não é um amigão. O filho tem que saber que ele tem um porto seguro. Mas se você não for o porto seguro, tudo bem, crie alguém para ser, porque pelo menos ele vai falar para alguém. Tem meninas que ficam 8 meses sendo abusadas e não falam para ninguém.
Tem que monitorar, tem que olhar, entender, ver as conversas, ver o que está acontecendo. Você deixaria seu filho na Avenida Paulista dançando de biquíni sozinho? Não. Mas você deixa na internet dentro do quarto. Está ok? Não está. É um ambiente extremamente perigoso.
Endurecer a lei ajudaria a coibir esses crimes?
O aliciamento, por exemplo, considera criança de 0 a 11 anos. Vulnerável é considerada uma criança de 0 a 13 anos. Então, 12 e 13 anos estão num limbo e deveriam estar dentro do aliciamento.
Por exemplo, para a posse, o armazenamento, desses conteúdos a pena é menor. Pode melhorar a pena. Se o cara usa mecanismos para tentar se anonimizar, isso não aumenta a pena. Deveria ser uma causa de aumento de pena.
Imagens criadas por inteligência artificial, por exemplo, não está claro na lei que isso é criminoso. Por muito tempo, entendeu-se que tem que ter uma criança real para ter o crime. Eles criam um estupro de uma criança numa IA, armazenam, compartilham. Um desenho, a grosso modo, você consegue ver. Mas se você tem inteligência artificial, você não consegue a olho nu saber se é uma criança real ou não. E aí eu vou correr atrás dessa criança ou não? Essa criança é real ou não é real? Cria um problema enorme para nós no mundo inteiro, não é só no Brasil.
Quando o conteúdo é de uma pessoa real, que o criminoso modificou por I.A, isso entra no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), mas quando é uma criação(por IA, por exemplo) não entra no ECA. Estamos tentando lutar para colocar isso expresso no ECA. A gente está tutelando crianças, mas está tutelando também a infância. Quando você disponibiliza imagens de estupro de criança, ainda que criadas por inteligência artificial ou desenhos, acaba fomentando esse tipo de conduta. De 2023 para 2024, segundo dados do NCMEC, aumentou em 1.300% a quantidade de imagens criadas por inteligência artificial. Isso vai chegar daqui a pouco pesado, fortíssimo, para a gente.
Os desafios para o futuro são o aprimoramento da legislação e a responsabilização das plataformas digitais?
Uma coisa muito importante também é a verificação etária nas plataformas. A verificação etária hoje é assim: o menino de 8 anos chega num bar e fala “quero uma cerveja”. Aí o cara fala: “Quantos anos você tem?” e ele fala: “18”. O cara entrega a cerveja. Na internet é assim. Até para o uso de pornografia, em geral, também é assim: “você tem 18 anos?”. “Sim”. Tem que ter mecanismos para realmente determinar a verificação etária. Isso vai ser um avanço gigante.
Outra coisa muito relevante é a responsabilização. Eles (as plataformas digitais) têm de monitorar proativamente. Só assim a gente vai conseguir melhorar, porque a polícia não vai conseguir ficar 24 horas fazendo isso. É impossível. A gente não tem recurso humano para isso. Boa parte é pautar a responsabilização deles. O Supremo já começou a fazer isso, mas isso tem que estar na lei. Não tem jeito.

