Como as plataformas digitais controlam a opinião pública?
ICL Notícias - 4/3/2026 - [gif]
A sua opinião política pode estar sendo moldada e polarizada através de bolhas criadas pelas plataformas digitais
O brasileiro é um dos povos que mais passa tempo nas plataformas digitais em todo o mundo, utilizando-as como canal de informação, para debate político, contato com amigos e familiares, influenciadores, marcas e reações aos acontecimentos. O que parece apenas conexão é, na prática, um sistema que organiza o que você vê com base em critérios invisíveis: os algoritmos.
No século XXI, as plataformas digitais se tornaram o principal espaço de circulação de informação e disputa política. A Meta, que controla o WhatsApp, Instagram e Facebook, o Google, dono do YouTube, e o X, antigo Twitter, por exemplo, não são apenas empresas de tecnologia. Elas operam como mediadoras centrais da opinião pública. E quando a mediação é automatizada e monetizada, o impacto político deixa de ser indireto.
Curtidas e comentários que parecem inofensivos podem controlar a opinião pública e refletir até mesmo em nossa democracia. As plataformas detêm mais informações sobre seus usuários do que muitos governos possuem sobre seus cidadãos.
O que são plataformas digitais e como funcionam seus algoritmos
As plataformas digitais são infraestruturas privadas que conectam usuários, produzem métricas de comportamento e distribuem conteúdos em escala massiva. Diferentemente da mídia tradicional, que opera com critérios editoriais explícitos, essas empresas organizam a informação por meio de sistemas algorítmicos.
Esses algoritmos classificam, recomendam e impulsionam conteúdos com base em métricas como curtidas, compartilhamentos, comentários e tempo de visualização. O que gera engajamento ganha visibilidade. O que não gera reação desaparece da sua linha do tempo.
Mas engajamento não significa qualidade de informação. Muitas vezes pode significar conflito, medo ou indignação. Segundo Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor de Internet (CGI), o modelo dessas empresas é baseado em conteúdos que provocam reações rápidas no sistema cognitivo, como medo, ódio e preconceito.
Algoritmos, transparência e formação de opinião pública
No ano de 2025, Mark Zuckerberg, dono da Meta, anunciou novas políticas de moderação. Pesquisadores e representantes da sociedade civil criticaram, em audiência pública da Advocacia Geral da União (AGU), as novas políticas da Meta por considerá-las uma ameaça à liberdade e à segurança digital no Brasil.
Segundo os especialistas, houve certo relaxamento na moderação de conteúdo e na checagem de fatos, o que facilitou a circulação de desinformação e discursos de ódio. Também foi apontada falta de transparência nos algoritmos que definem quais conteúdos ganham visibilidade ou são silenciados nas plataformas.
Os participantes alertaram que essas mudanças afetam especialmente grupos vulnerabilizados, além de expor crianças e adolescentes a conteúdos nocivos e publicidade invasiva. Além disso, representantes LGBTQIAPN+ denunciaram que as diretrizes podem legitimar conteúdos discriminatórios.
Para os pesquisadores, a ideia de que apenas o Estado pode censurar é limitada, já que plataformas privadas também exercem poder ao organizar e priorizar a circulação de informações.
A crítica central não é apenas sobre conteúdo, mas sobre transparência. Os algoritmos operam sem transparência sobre critérios de moderação e visibilidade.
Bolhas informacionais e polarização
Em uma era contemporânea em que a atenção do usuário é o capital das plataformas digitais, seus algoritmos tendem a entregar conteúdos alinhados às crenças de cada usuário — não como uma coincidência, mas como uma ferramenta muito bem pensada, que prende a sua atenção e te mantém navegando.
Renata Mielli descreve esse processo como um ciclo vicioso: você se relaciona com conteúdos e grupos com os quais já tem predisposição de concordar, alimentando a polarização e reduzindo o contato com perspectivas divergentes.
Nesse ambiente fragmentado, a desinformação circula com facilidade. Não é necessário inventar uma mentira explícita. Basta repetir enquadramentos, amplificar determinados temas e silenciar outros.
A manipulação da opinião não depende apenas de fake news. Ela depende de arquitetura de visibilidade.
As plataformas digitais, com sua lógica de colocar usuários em bolhas para garantir o engajamento, têm se beneficiado economicamente da polarização política no país. Em manifestações, sujeitos de campos ideológicos opostos são, frequentemente, protagonistas de episódios de enfrentamento.
Extremismo e ausência de moderação
Um relatório da organização de defesa dos direitos humanos, Global Project Against Hate and Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo, em português), mapeou mais de 20 grupos extremistas ativos no Brasil. Muitos deles utilizam redes sociais para disseminar discursos de ódio sem moderação eficaz. Esses grupos atuam em plataformas como Facebook, X, YouTube e Telegram. A pesquisa aponta que o crescimento do extremismo está relacionado ao uso intensivo das mídias sociais para espalhar medo e desinformação.
Quando a lógica de engajamento premia conteúdo que gera reações intensas, discursos desumanizantes encontram terreno fértil. A arquitetura algorítmica não é neutra diante desse cenário.
Quando o discurso de ódio vira política de plataforma
Em 8 de maio de 2025, exatamente no dia que marca o fim da Segunda Guerra Mundial, o rapper estadunidense Kanye West, agora apenas ‘Ye’, após fazer diversas declarações públicas em apoio ao nazismo e ao antissemitismo, lançou o clipe de uma música em homenagem a Hitler, usando um discurso do próprio ditador.
A faixa foi removida do Apple Music, Spotify, YouTube e Reddit, mas seguiu disponível no X, onde somou mais de 10 milhões de visualizações. Fato é que a rede social, desde que passou a ser controlada por Elon Musk, passou a facilitar a circulação de discursos de ódio, desinformações e fake news.
Musk foi um dos principais apoiadores e investidores na eleição de Donald Trump. As plataformas flexibilizam a moderação sob o discurso de “liberdade de expressão”, e o resultado é a ampliação de narrativas extremistas.
Plataformas digitais não são neutras
Mas também podemos encontrar casos de motivação política nas redes sociais aqui no Brasil. Em 2025, o sociólogo, professor e influenciador Thiago Torres, mais conhecido como Chavoso da USP, teve seu perfil derrubado nas redes sociais da Meta sem a apresentação de justificativas.
A empresa informou apenas que a conta não seguia os padrões da comunidade, sem sequer indicar qual regra teria sido violada. Ele chegou a criar um novo perfil para denunciar o caso, mas foi igualmente derrubado.
Em sua denúncia, o próprio influenciador afirmou que acredita em motivação política. Independentemente da avaliação individual do caso, o ponto central é a assimetria de poder. Quando uma empresa privada pode excluir um perfil com mais de um milhão de seguidores sem transparência ou possibilidade clara de defesa, estamos diante de um problema estrutural.
Entendendo as plataformas digitais como o principal espaço de debate público, sabemos que suas decisões afetam diretamente a pluralidade política.
Disputas judiciais e responsabilidade das plataformas
A ausência de regras claras de responsabilização levou a uma explosão de processos judiciais envolvendo Big Techs. Em 2025, cerca de 40% das ações analisadas contra essas empresas em tribunais superiores tratavam de remoção de conteúdo.
Um dos casos analisados aconteceu em 2020, quando um garoto de apenas 13 anos fugiu correndo de dois homens, percorrendo dois quarteirões para se esconder. A fuga foi gravada por câmeras de vigilância e acabou viralizando no Facebook com a acusação de que o garoto teria praticado roubos na região.
A mãe do garoto precisou fazer um boletim de ocorrência contra a página que publicou o vídeo e também contra o Facebook, para a remoção do conteúdo nas plataformas digitais, com muitos comentários de ódio e inclusive ameaças.
A falta de responsabilização pode gerar danos irreversíveis às pessoas. O garoto precisou viver quase um ano em outro estado devido à repercussão do vídeo.
O caso do menino é apenas um entre as 289 ações judiciais que tramitaram no STF e no STJ envolvendo as plataformas digitais no ano de 2025. O juiz responsável pelo caso entendeu que a Meta não tinha responsabilidade sobre o ocorrido e ainda puniu a mãe do adolescente com uma multa de 10% do valor do processo.
Mesmo com o impacto concreto, decisões judiciais isentaram a plataforma de responsabilidade. Sem regulamentação clara, cria-se um cenário em que crimes virtuais, golpes e ataques à honra proliferam em um país onde as plataformas digitais são onipresentes, mas com regras de responsabilidade que ainda são frágeis.
Os limites da liberdade de expressão
Durante os anos do governo Bolsonaro, o Brasil passou por tempos difíceis na liberdade de expressão, regredindo em um discurso que, por muitas vezes, apoiava a liberdade de expressão, mesmo quando ela agride uma comunidade. Foi o caso de Monark, apresentador do Flow Podcast, que, no ano de 2022, fez declarações sobre a importância de ter pessoas que apoiam o nazismo na sociedade.
Esse é o cenário de “liberdade” promovido pelo governo bolsonarista. Fato é que, no primeiro ano após a saída de Bolsonaro, o Brasil registrou o maior avanço no índice global de liberdade de expressão, passando da 87ª para a 35ª posição.
O Global Expression Report 2024, divulgado pela ONG Artigo 19, sediada em Londres, trouxe dados relativos a 2023, classificando a liberdade de expressão de 161 países. O relatório aponta melhora em áreas como direitos digitais e liberdade contra censura governamental.
Ao mesmo tempo, com a promoção do discurso de ódio pelos bolsonaristas, decisões do STF sobre remoção de conteúdo foram alvo de críticas e mobilizações políticas. O debate sobre liberdade de expressão passou a ser instrumentalizado por setores da extrema direita.
Elon Musk e Mark Zuckerberg têm se apresentado como defensores da “liberdade”, ao mesmo tempo em que anunciam mudanças que flexibilizam a checagem de fatos e políticas de moderação. O dono da Meta se livrou em 2025 dos checadores de informação, assim como Musk fez com o X.
Zuckerberg também comunicou a modificação em políticas sobre imigração e gênero e declarou querer trabalhar com Trump para pressionar outros países pelo que chamou de “fim da censura”, um discurso usado para pressionar países e contestar decisões judiciais.
Na prática, Zuckerberg e Musk não somente apoiaram a extrema direita, mas facilitaram os discursos de ódio e ameaçam a soberania de países através de suas plataformas digitais.
A importância do debate regulatório das plataformas digitais para a democracia
Agora que já entendemos como as plataformas digitais influenciam na opinião pública e na democracia, é preciso entender que, para enfrentar o discurso de ódio da extrema direita, é necessário pensar em uma regulação das plataformas digitais, um tema que se torna central para a sobrevivência das democracias.
Para a coordenadora do CGI, Renata Mielli, combater a extrema direita exige enfrentar o debate da regulação das plataformas digitais. Segundo ela, as plataformas digitais nos colocam em uma caixa de ressonância de conteúdos que nós já temos predisposição para consumir, criando um processo de polarização em nossa sociedade.
A regulação das plataformas digitais se faz importante ao entender o poder econômico das Big Techs, que moldam a opinião pública e têm papel central na geopolítica internacional. Renata afirma que não conseguiremos enfrentar a extrema direita se não enfrentarmos o debate da regulação das plataformas digitais.
O crescimento mundial de setores de extrema direita se dá embasado nesses algoritmos que privilegiam o medo e a desinformação em suas bolhas.
Após as denúncias feitas pelo influenciador Felca no ano de 2025, que expôs uma rede criminosa de fácil acesso à exploração infantil nas plataformas digitais e como os abusadores conseguem se proliferar através do algoritmo, a Câmara dos Deputados decidiu votar um projeto de lei para proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais, mostrando como o Estado pode estabelecer deveres e limites claros às empresas.
O projeto prevê mecanismos de prevenção, retirada de conteúdo nocivo e possibilidade de punições. Entre as medidas estão a obrigação de prevenir exposição a conteúdos de exploração e violência, a retirada de conteúdo ofensivo independentemente de ordem judicial e multas que podem chegar a 10% do faturamento no Brasil.
Por outro lado, a extrema direita busca contrapor o debate da regulação das plataformas digitais e da mídia, por exemplo, como censura. É importante entender que a regulação nada tem a ver com censura, mas sim estabelecer responsabilidades proporcionais ao poder exercido.
Manipulação de opinião como risco estrutural
A manipulação de opinião nas plataformas digitais não é uma exceção. Ela é uma consequência lógica de um modelo baseado na monetização da atenção.
Quando algoritmos priorizam reação emocional, quando moderação é opaca, quando empresas atuam globalmente com poder econômico superior ao de muitos países, o resultado é previsível.
A esfera pública passa a ser organizada por critérios comerciais e decisões técnicas passam a ter impacto político direto. A democracia depende de debate público informado. Se a arquitetura do debate é desenhada para maximizar o conflito, o risco não é episódico. É estrutural.
Não podemos tratar as plataformas digitais como ferramentas neutras. Elas são infraestruturas privadas que estruturam todo o campo político contemporâneo. Entender como funcionam seus algoritmos, como operam suas políticas de moderação e como influenciam eleições é parte da formação cidadã no século XXI.

