Brecha nas regras da Meta nos EUA favorece desinformação no Brasil
Lupa - 17/12/2025 - [gif]
Autor: Gabriela Soares
Vídeos publicados fora do Brasil circulam com 'fakes' sobre o país sem os avisos de checagem e chegam a milhões
Em um vídeo publicado no Instagram poucos dias após a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), um criador de conteúdo com 1,1 milhão de seguidores na rede exibiu um áudio atribuído ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na gravação, o petista supostamente agradece a um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) pela prisão do rival político e afirma que a ação fortalece seu plano de “soberania do PT” no país. Tudo falso.
Trata-se de um deepfake. O áudio foi gerado por inteligência artificial (IA), como mostra a verificação da Lupa. Ainda assim, o vídeo enganoso foi repostado 237 vezes no Instagram, acumulando mais 1,3 milhão de visualizações até 4 de dezembro de 2025.
Um segundo vídeo, publicado por outro influenciador — este com 70,3 mil seguidores no Instagram — e também desmentido pela Lupa, simula uma reportagem que “noticia” que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria ameaçado usar o Exército norte-americano para prender o ministro do STF Alexandre de Moraes. Assim como no caso anterior, o post viralizou e somava, sozinho, 5 milhões de visualizações até 9 de dezembro de 2025. A publicação também foi republicada por outras 25 contas na plataforma, que juntas, acumularam 1,18 milhão de visualizações.
Ambos os conteúdos seguem a mesma lógica: desinformar para gerar engajamento e comoção pública. Eles também alimentam teorias conspiratórias potencialmente perigosas. Uma vez que reforçam discursos antidemocráticos — um risco já conhecido, e fator-chave para a mobilização golpista que culminou nos ataques de 8 de janeiro.
Além dessas semelhanças, as contas têm outro ponto em comum. Ambas estão situadas nos Estados Unidos e, por isso, não estão sujeitas ao Third-Party Fact-Checking–3PFC (Programa de Verificação de Fatos, em português), encerrado pela Meta (empresa dona do Facebook, Instagram, Threads e WhatsApp) no país em janeiro deste ano. Que passou a utilizar o sistema adotado pelo X (antigo Twitter), prevê que usuários colaborem adicionando notas a conteúdos potencialmente desinformativos. O novo modelo começará a ser aplicado primeiro nos EUA, enquanto o 3PFC segue ativo no Brasil.
Embora o Programa de Verificação do Facebook continue ativo no Brasil, as marcações de desinformação não aparecem mais para contas registradas nos EUA. Ou seja, um vídeo falso postado por uma conta norte-americana pode receber o rótulo de “informação falsa” para usuários brasileiros, mas permanece sem aviso para perfis estadunidenses. Os alertas ficam visíveis apenas para contas em países participantes, como o Brasil.
Como funciona o Programa de Verificação de Fatos do Facebook?
Criado em 2016, o 3PFC contou com o apoio de agências de verificação de fatos independentes certificadas pela Aliança Internacional de Checagem de Fatos (International Fact-Checking Network, IFCN, em inglês). Iniciado no Brasil em 2018, o programa permite que agências de checagem como a Lupa analisem conteúdos, verifiquem informações e adicionem notificações em casos de conteúdos enganosos, informando que aquela publicação precisa de contexto adicional.
Importante: o conteúdo não é removido da plataforma e nem censurado. Esse fato foi reforçado pela IFCN, em nota à Lupa:
"Nossos signatários não removem conteúdo da internet. Eles adicionam informações ao registro público. (…) A moderação de conteúdo por empresas de tecnologia e a verificação de fatos jornalística são exercícios de liberdade de expressão”
Aliança Internacional de Checagem de Fatos (International Fact-Checking Network, IFCN, em inglês).
Com a mudança nas regras nos EUA, os conteúdos publicados por criadores com contas localizadas em solo norte-americano não passam pelo sistema de checagem e rotulagem de desinformação ativo no Brasil. Dessa forma, mesmo quando os influenciadores produzem conteúdos voltados ao público brasileiro — aqui sobre políticos e fatos nacionais —, conseguem driblar as regras de verificação e manter publicações enganosas sem a marcação de falso.
Para Renata Mielli, jornalista e coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), essa estrutura acaba favorecendo atores que produzem conteúdos com o objetivo de causar danos políticos, eleitorais ou econômicos. “Essas pessoas se beneficiam dessas brechas regulatórias, dificultando a aplicação das regras”, diz.
Ainda assim, ela ressalta que o fato de o conteúdo ser produzido fora do Brasil não impede, necessariamente, a responsabilização. “Em determinados casos, mesmo produzindo conteúdo a partir do exterior, é possível responder por ilícitos. Crimes graves seguem sujeitos às leis dos países envolvidos”, complementa.
Na mesma linha, Camila Tsuzuki, coordenadora de pesquisa do InternetLab, avalia que a aplicação das regras de moderação deveria ser ajustada conforme o público-alvo da publicação. Ela lembra que, hoje, “as regras de moderação costumam se basear no país onde estão os usuários”, mas defende que esse critério precisa ser revisto para evitar brechas exploradas por influenciadores que falam com o público brasileiro a partir do exterior.
“O local de registro do usuário que postou ou onde ele está não deveria influenciar a aplicação das políticas"
Camila Tsuzuki, coordenadora de pesquisa do InternetLab.
Deepfakes fabricadas nos EUA alimentam teorias conspiratórias no Brasil
O influenciador responsável pelo falso áudio do Lula repete o método de desinformar para engajar com frequência. Em apenas 15 dias, entre 24 de novembro e 9 de dezembro, ele publicou cinco deepfakes: três envolvendo Lula e duas, o ministro Alexandre de Moraes, conforme levantamento feito pela Lupa.
Juntos, esses vídeos somaram 9,97 milhões de visualizações e 937,3 mil curtidas no Instagram. O áudio citado anteriormente não entrou na conta porque foi apagado e já não estava disponível quando os dados foram coletados, em 10 de dezembro de 2025.
O post com maior alcance, com 3,4 milhões de visualizações, mostra um áudio gerado por IA — como aponta análise da ferramenta Detectable AI —, falsamente atribuído a Moraes. Nele, o ministro “ameaça” o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do PL da Dosimetria – que beneficia condenados pela trama golpista e participantes dos ataques de 8 de janeiro – para “impedir” que o parlamentar avance com o texto.
Influenciador: ‘O general ministro [Alexandre de Moraes] mandou um recado para o Paulinho da Força, que é o relator da PL da anistia’
Voz de Alexandre de Moraes: ‘Você sabe que essa anistia não pode passar, né? Se vira. Ou eu vou tirar da gaveta os processos contra você aqui no STF. Inventa alguma coisa, uma dosimetria, qualquer coisa que mantenha o Bolsonaro preso e inelegível’”
– Falas em vídeo enganoso com 3,4 milhões de visualizações até 12h do dia 10 de dezembro de 2025.
Falso
Em outro vídeo, o criador forjou uma fala do Lula, na qual “ele se queixa” do suposto avanço eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) que anunciou sua pré-candidatura à Presidência.
No vídeo, o influenciador afirma que o primogênito de Bolsonaro “mal anunciou sua candidatura e já empata no segundo turno com Lula”, sugerindo que isso teria levado o petista a acionar aliados para tentar prejudicá-lo. Em seguida, ele exibe o áudio falsificado no qual a voz atribuída a Lula pede que “providências” sejam tomadas para tornar Flávio “inelegível até 2060” e, “se possível”, preso.
Em ambos os casos, ele constrói a narrativa combinando um fato verdadeiro — como a prisão de Bolsonaro e a candidatura de Flávio — com especulações formuladas por ele próprio. Nesse contexto, o áudio manipulado funciona como uma espécie de prova fabricada para sustentar conclusões que não se apoiam em qualquer evidência real.
A estratégia funciona. As postagens acumulam centenas de reações de usuários indignados com as falsas “revelações” e reforçando a ideia de “ditadura”. “Socorro Jesus nos livre do PT comunismo e Alexandre STF ditadura”, escreveu um internauta.
Outra parte do engajamento reacende a já desmentida narrativa de fraude eleitoral, costumeiramente ressuscitada nas redes e por políticos, como o próprio Flávio Bolsonaro, para colocar o resultado do último pleito em dúvida. “Cuidado que o Xandão [Alexandre de Moraes] faz falcatruas nas urnas” e “eleições só com votos impressos e auditáveis”, comentaram outros usuários.
Rotulagem e verificação de fatos nas redes sociais pode diminuir circulação de fakes
Embora muitos comentários endossem as falsas afirmações do influenciador, parte dos usuários demonstra desconfiança. Nos comentários, há quem levante a possibilidade de uso de inteligência artificial. “Será que é ele falando? Falou muito certinho as palavras”. “Eu também fiquei nessa… IA tá fod*… mas espero que seja verdade”, respondeu outro usuário.
Esse tipo de reação ajuda a entender porque a rotulação de conteúdos — com avisos que indicam quando uma publicação é falsa ou manipulada, como no Programa de Verificação do Facebook — pode funcionar como um freio à circulação de desinformação. A pesquisa Vetores e implicações da desordem informacional na América Latina mostra que 9 em cada 10 entrevistados na região afirmam não compartilhar conteúdos rotulados como falsos ou manipulados. No Brasil, 70% dizem evitar publicações com esse tipo de sinalização.
Para Tsuzuki, os resultados reforçam como esse tipo de mecanismo pode ser eficiente em um ambiente marcado pela circulação constante de conteúdos duvidosos e pela dificuldade dos usuários em saber em quem — e no que — confiar.
“Em um ambiente informacional marcado pela desconfiança, a pesquisa indica que mecanismos de rotulagem podem funcionar como um sinal ou guia para ajudar os usuários a navegar no consumo de informação. Por isso, essas ferramentas precisam ser construídas de forma a fortalecer a integridade informacional, com valorização de fontes confiáveis e do jornalismo de interesse público”
Camila Tsuzuki, coordenadora de pesquisa do InternetLab
Regulamentação, desafios internacionais e eleições
Mielli explica que essas brechas não são uma exclusividade da Meta, mas das big techs em geral. Elas operam com políticas genéricas, ajustadas a legislações e acordos locais, o que gera sobreposição jurídica.
"Um usuário pode estar submetido simultaneamente às regras do país onde vive, às normas brasileiras e às políticas definidas pela sede da plataforma, como a Califórnia, no caso da Meta. Essa combinação de jurisdições cria um alto grau de complexidade jurídica".
Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)
Para ela, decisões recentes, como o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet ampliam a responsabilização das plataformas em casos específicos. Ainda assim, Mielli avalia que são insuficientes sem regulação própria para o setor. “Tudo seria mais simples e traria mais segurança jurídica se houvesse uma legislação que detalhasse as obrigações das plataformas e indicasse um órgão responsável por acompanhar e fiscalizar o cumprimento dessas regras”, diz.
O desafio cresce com a aproximação das eleições de 2026 e o uso cada vez mais sofisticado da IA para produzir áudios, vídeos e imagens sintéticas. Para Mielli, mesmo com a possibilidade de o Congresso avançar na regulação da IA ou resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conteúdos desinformativos de influenciadores e usuários comuns sem vínculo formal com campanhas escapam do controle eleitoral.
Camila Tsuzuki, do InternetLab, concorda que regras claras são essenciais, mas alerta contra padronização das políticas de moderação. “Elas [Plataformas] têm funcionalidades e objetivos distintos, e os usuários desenvolvem estratégias específicas em cada ambiente”, afirma. Ela defende uma regulação capaz de se adaptar às dinâmicas de cada rede, combinada a investimentos contínuos em mecanismos de mitigação da desinformação. Também destaca as resoluções do TSE como chave para eleições impactadas pela IA.
Ao final, Mielli pondera que o fato de parte da desinformação analisada ser produzida a partir dos Estados Unidos representa um agravante — mas não o cerne do problema.
“A produção de conteúdos falsos nos EUA é um risco adicional, mas não é o principal. Infelizmente, nós também temos muitas pessoas produzindo desinformação dentro do Brasil, sem que esses conteúdos sejam removidos ou moderados pelas plataformas”.
Renata Mielli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)
Outro lado
A Meta informou por telefone que o programa de Verificação de Fatos, em parceria com as agências de checagem independentes, segue ativo no Brasil. Segundo a empresa, o modelo prevê a atuação de checadores certificados para identificar conteúdos potencialmente enganosos publicados no Facebook, Instagram e Threads. “O foco deste programa de verificação de fatos é identificar e reduzir a desinformação viral, principalmente os boatos que não têm base em fatos”, explica a big tech.
Já nos Estados Unidos, a Meta afirma ter adotado um modelo diferente, baseado em colaboração entre usuários, chamado Notas da Comunidade, cuja implementação começou no país e deve ser expandida para outras regiões. E ressalta que suas políticas contra desinformação seguem em vigor, incluindo a remoção de conteúdos quando há “risco de danos iminentes”.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi procurado para comentar, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.

