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26 JAN 2026

A falácia da IA universal: 'todo mundo usa' é um mito da adoção global


Época Negócios - 23/1/2026 - [gif]


Autor: Dora Kaufman


Embora a adoção da IA generativa tenha sido, de fato, a mais rápida da história, a realidade corporativa e os números globais indicam um cenário distinto do discurso dominante

A afirmação alardeada de que “todo mundo está usando Inteligência Artificial Generativa” não apenas é inexata; é uma falácia que mistura apelo à popularidade com o marketing da indústria, ambos direcionados a atrair capital de risco. Embora a adoção da IA generativa tenha sido, de fato, a mais rápida da história, a realidade corporativa e os números globais indicam um cenário distinto do discurso dominante. A ideia da universalidade ignora evidências de uma distribuição profundamente desigual entre regiões geográficas, setores e faixas etárias.

Somadas, as duas soluções mais populares - a OpenAI afirma ter 700 milhões de usuários ativos semanais, e o Google relata que o Gemini tem cerca de 650 milhões de usuários - apresentam números impressionantes. No entanto, ao confrontá-los com a população mundial de 8,3 bilhões, percebe-se que apenas 16% da humanidade interage regularmente com essas soluções (mesmo sem descontar a tendência de inflar os números e as sobreposições de usuários que utilizam ambas). Ou seja, longe de ser universal, a IA generativa é hoje uma realidade restrita.

Essa disparidade reflete e amplia desigualdades históricas de conectividade e capacitação. Segundo o relatório do “Microsoft AI Economy Institute”, que ressalva que nenhuma métrica é perfeita, a adoção no Norte Global cresceu quase duas vezes mais rápido do que no Sul Global, ampliando a diferença no segundo semestre de 2025 de 9,8 para 10.6 pontos percentuais. Como resultado, 24,7% da população em idade ativa no Norte Global utiliza a IA generativa, em comparação com apenas 14,1% no Sul Global. Embora a adoção de IA tenha passado de 15,1% no primeiro semestre de 2025 para 16,3% no segundo semestre, essa expansão não é igualitária.

A liderança dos Emirados Árabes, Singapura, Noruega, Irlanda, França e Espanha reflete investimentos em infraestrutura digital, capacitação e adoção governamental; os Emirados Árabes Unidos ampliaram sua vantagem como o país número 1, com 64% da população em idade ativa utilizando IA no final de 2025, em comparação com 59,4% no início do ano. Os Emirados Árabes Unidos abriram uma vantagem de mais de três pontos percentuais sobre Singapura, que permanece em segundo lugar com 60,9% de adoção. No entanto, esses investimentos não são suficientes para ampliar a adoção da IA: no segundo semestre de 2025, apesar de liderarem em inovação e infraestrutura, os EUA caíram da 23ª para a 24ª posição no uso de IA entre a população em idade ativa, com uma taxa de utilização de 28,3%.

Em contraste, a Coreia do Sul, em apenas três meses, subiu sete posições no ranking global (do 25º para o 18º lugar). Impulsionado por políticas governamentais e aprimoramento de modelo em coreano, integrou a IA em escolas, locais de trabalho e serviços públicos - a Coreia do Sul se tornou um dos mercados de crescimento mais rápido do ChatGPT, levando inclusive a OpenAI a abrir um escritório em Seul. Em paralelo, a solução de IA generativa chinesa de código aberto e gratuita, DeepSeek-R1, teve uma ascensão meteórica na China, Rússia, Irã, Cuba, Bielorrússia e África, resultado de parceria com a Huawei.

No Brasil, o abismo é ainda mais pronunciado. Dados da pesquisa “TIC Domicílios 2025” revelam uma divisão de classe e escolaridade: Apenas 32% dos brasileiros com acesso à internet utilizam alguma solução de IA generativa, sendo 69% da classe A, 32% na classe C e apenas 16% na classe D/E. Na distribuição por nível educacional, 59% dos brasileiros com ensino superior adotaram a IA, em contraste com 17% do ensino fundamental - a pesquisa foi conduzida pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br ), responsável pela produção de indicadores e estatísticas sobre a disponibilidade e uso da Internet no Brasil do nic.br, criado para implementar as decisões e os projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil, CGI.br, responsável por coordenar e integrar as iniciativas e serviços da Internet no País.

O relatório da consultoria McKinsey (“O estado da IA em 2025”, 5 de novembro de 2025), desmistifica a integração empresarial. Embora 88% das organizações reportarem o uso de IA em alguma função, cerca de dois terços ainda estão em fase de experimentação ou piloto. Apenas um terço implementou a tecnologia de forma relevante. As causas são várias, desde a imaturidade tecnológica, com altas taxas de incertezas e respostas incorretas - logo soluções não inteiramente confiáveis - até altos custos de preparação de dados. A falta de capacitação das equipes, principalmente dos gestores seniores, gera frustração ao não entregar os “retornos milagrosos” prometidos (ou esperados). Um dos equívocos é tratar a IA como um software convencional, quando sua implementação plenamente exitosa demanda transformação operacional (processos) e cultural.

O PNDU - “Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento”, fundado em 1965 com sede em NY, é o órgão da Organização das Nações Unidas que tem por mandato promover o desenvolvimento e erradicar a pobreza no mundo - alerta para o impacto da IA no desenvolvimento humano, na economia e nos países. O relatório “2025 GLOBAL SURVEY ON AI AND HUMAN DEVELOPMENT" investigou a relação entre IA e desenvolvimento em 21 países com foco na desigualdade (e não na inovação tecnológica), na disrupção do mercado de trabalho, nas disparidades de gênero no acesso, e as diferenças na capacidade e na confiança do Estado.

A confiança de que os sistemas de IA são projetados para agir no melhor interesse da sociedade varia notavelmente entre os países: com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) muito alto, predomina o ceticismo (50% da população duvidando), confiança que vai decrescendo diretamente proporcional ao nível do IDH. Cerca de 60% da população espera que a IA gere novas oportunidades de emprego, enquanto metade prevê a substituição por automação. No entanto, essa visão depende do fomento a colaboração entre humanos e IA (“Economia de Complementaridade”). Percebe-se um desalinhamento cultural, por conta de vieses culturais e linguísticos, moldado pelos contextos dominantes nos quais os modelos e sistemas de IA generativa são treinados - com 46% ressaltando que apenas “às vezes as soluções de IA soam como alguém de suas comunidades locais”, e 26% afirmaram que “nunca soam como alguém de sua região” - indicando a premência de “construir IA que reflita melhor a diversidade cultural e linguística de seus atuais e potenciais usuários — tornando as interações mais inclusivas, relevantes e confiáveis”.

Portanto, a narrativa da adoção universal da IA é um constructo retórico. Sua vertiginosa disseminação está longe de ser um fenômeno democrático ou homogêneo. Pelo contrário, segue e aprofunda as desigualdades geopolíticas e socioeconômicas. Viabilizar uma adoção equitativa exige mais do que avanços tecnológicos; requer infraestrutura robusta, políticas públicas visionárias, capacitação massiva da força de trabalho, letramento dos cidadãos e o desenvolvimento de soluções culturalmente contextualizadas. Sem isso, a IA deixará de ser um motor de progresso para se tornar um poderoso vetor de concentração de conhecimento, poder e riqueza.